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Tem Alguém na Sua Casa

O terror para falar do mundo

(There's Someone Inside Your House, CAN, EUA, 2021)
Nota  
  • Gênero: Terror
  • Direção: Patrick Brice
  • Roteiro: Henry Gayden
  • Elenco: Sydney Park, Théodore Pellerin, Asjha Cooper, Dale Whibley, Jesse LaTourette, Burkely Duffield, Diego Josef, Zane Clifford, BJ Harrison, Emilija Baranac, Jade Falcon
  • Duração: 96 minutos

Sim, você já viu isso antes. A maioria de nós viu. E mais de uma vez. O slasher é um gênero que tem fãs cativos e que com sua repaginada, em meados dos anos 1990, conquistou novas gerações. Mudam nomes, motivações, armas do crime e máscara, o resto vai dar praticamente no mesmo lugar. Tem Alguém na Sua Casa faz a linha dos assassinos de high school, aquela que se tornou muito popular com o filme Pânico. Aqui, o mascarado tem como alvo pessoas que guardam segredos sombrios, ou pelo menos essa seria a sua desculpa para matar.

Na trilha do gênero, o filme aposta naquele desenrolar do horror onde a apresentação não vem anunciada por palavras, mas pela ansiedade do não saber e do não ver. Apesar do público saber da morte iminente, por todos os artifícios usados pelo diretor Patrick Brice e também por estar em um ambiente já visitado antes em outros títulos, a vítima vai percebendo o que vai acontecer muito tempo depois. É assim o primeiro assassinato, do astro do time de futebol americano homofóbico, e como se apresenta o assassino com máscaras personalizadas.

Tem Alguém Na Sua Casa
DAVID BUKACH/NETFLIX © 2021

Esse começo é até interessante, bem trabalhado na tensão e no suspense, mas que o filme não consegue se manter por muito tempo. O roteiro de Henry Gayden é baseado no livro homônimo da escritora infantojuvenil Stephanie Perkins e ambos, mais do que interessados na história de seu psicopata, dedicam-se à sua protagonista Makani, havaiana que, fugindo de um acidente que causou no passado, acabara de se mudar para a cidade. Os personagens de Tem Alguém na Sua Casa seguem estruturas tradicionais que são aproveitadas mas não deixam de se atualizar.

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Porém, por mais que insira o novo em tela, por mais que traga o contexto, e isso até se dê de maneira natural, afinal de contas, hoje em dia não caberia mais ser de outra maneira, o modo como trabalha o absurdo do preconceito e da discrimação é superficial e se descola do contexto geral. O gore vai no crescente dos segredos que se revelam até que se perca quando tudo pare de fazer sentido. O que teria uma lógica pela natureza do assassino, e aí poderia se falar da origem do mal e toda uma gama de traços de personalidade que viriam da origem do vilão — algo que o roteiro e o filme não fazem a contento — se perde.

O longa ensaia um debate interessante sobre temas difíceis da atualidade, fala principalmente de intolerância. Ela perpassa todo o filme, é citada a todo momento seja como motivação para ações do assassino ou para o falso posicionamento de conciliação na cantina da escola. Há toda uma composição de grupo, com exclusões e acolhimentos, determinações e sutilezas, mas é como se tudo se embaralhasse no meio do caminho e o filme se perdesse em meio aos ataques.

Tem Alguém Na Sua Casa
DAVID BUKACH/NETFLIX © 2021

Mas isso quando se vai a fundo. Na superfície, em sua trilha de gato e rato, no assassino misterioso e suspeito óbvio, Tem Alguém na Sua Casa é um filme funcional. As peças estão todas no lugar certo e se movem de maneira correta pelo tabuleiro, provocando os sustos esperados, deixando dúvidas pelo caminho e ganhando alguns pontos extras com mistérios que estão além da trama central, como o que teria levado Makani até a casa de sua avó no Nebraska ou qual é a sua relação com Ollie.

No final das contas, é um daqueles filmes de horror adolescente que vem para mostrar que o gênero permanece vivo e reinventando-se à medida que o tempo passa, adequando-se a mudanças, mas, raras exceções, dando poucos passos para longe da fórmula que o fez estar sempre em alta. Tem Alguém na Sua Casa tenta trazer ao slasher uma temática super atual, algo que precisa ser debatido pelos jovens e, mesmo que não o faça da melhor maneira, está lá mostrando a permanência do gênero e, de certo modo, a sua função.

Um grande momento
Cozinha revirada

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Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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