Crítica | Streaming

Negra como a Noite

Vingança na veia

(Black as Night, EUA, 2021)
Nota  
  • Gênero: Terror
  • Direção: Maritte Lee Go
  • Roteiro: Sherman Payne
  • Elenco: Asjha Cooper, Mason Beauchamp, Shawna Theodus Crane, Keith David, Frabizio Guido, Tunde Laleye, Al mitchell, Sammy Nagi Njuguna
  • Duração: 87 minutos

Adolescência é aquela época em que nunca olhamos para o espelho e conseguimos nos sentir bem. Parece que existe uma relação mística com a gravidade, enquanto crescemos, o que não conta para cima está pesando para baixo na autoestima. Shawna passa por esse momento, algo que se complica com questões raciais históricas, uma comunidade marcada pela tragédia e um drama familiar marcado pelo vício. A protagonista —  que ainda bem não está em um filme do Lee Daniels — vai encarando tudo como dá. A diretora Maritte Lee Go tem outras intenções. Sim, o quadro é terrível, mas ela quer trabalhar com isso de outra forma e em Negra como a Noite usa o terror para abordar o assunto de maneira divertida, vejam só. 

Sherman Payne não economiza na definição da personagem em seu roteiro, levando tudo ao extremo e talvez exagerando na dose. A ideia é criar essa contraposição entre o desacerto e o encontrar de uma razão, uma força consagradora, num desenho de heroína que nada tem de original, mas que sempre funciona. Maritte escuta as brincadeiras idiotas de seu irmão sobre a cor de sua pele, mais escura que a dele; tem que encarar a situação da mãe; dá foras nas baladas e só fica bem com o melhor amigo porto-riquenho, isso até transformar-se após seu primeiro ato de coragem. Daí pra frente é spoiler.

Em sua aventura vampiresca Lee Go tenta unir dois mundos: além de criar uma aventura divertida, com os tradicionais mortos-vivos e a caçada para salvar o mundo, ela traz o debate sobre a questão racial, tocando temas como a escravidão, a falta de oportunidades, a desigualdade histórica, a gentrificação e muito mais. Além disso, um dos grandes embates diz respeito ao modo de se combater o racismo e reparar anos de privilégio branco.

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Negra como a Noite
Amazon Prime Video

Pena que Negra como a Noite não consiga se entender muito bem com a própria história e ora saiba se dedicar ao tema, ora se perca em desvios meio ultrapassados para os dias de hoje. Mesmo que em 1897 fizesse sentido para Bram Stocker que prostitutas fossem algo importante para vampiros, a função aqui é simplesmente a de facilitar as coisas. Assim como alguns personagens que surgem para ajudar. Sabe aquele dono da loja exotérica da esquina ou a senhora da biblioteca que conhece aquele livro ocultista? Aqui ela vem na figura de uma jovenzinha ingênua que lê Anne Rice e é a especialista no assunto. Mas isso seria até algo que poderia entrar na conta da ar adolescente do filme.

É quando está nesse território, aliás, que Negra como a Noite está mais confortável. Ao associar a caçada à falta de noção característica da idade, o filme diverte. Há muita risada e tensão que só mesmo a irresponsabilidade de um adolescente caçando vampiros poderia causar. Porém, nunca se deixa de notar uma certa diferença de intenções. É como se o roteiro puxasse para um lado e a direção levasse para outro.

A forma também nem sempre é apurada. O filme, que faz parte da pacote de filmes acordado entre a Blumhouse e a Amazon Studios, muitas vezes deixa uma impressão de pouco cuidado com a produção. Até existe uma elaboração nas maquiagens e nos efeitos, há boas soluções como o uso do flashback em animação, mas a fotografia chapada e mis-en-scène descuidada incomoda aqui e ali. Falta também um pulso mais firme na condução dos atores. Embora Asjha Cooper (Tem Alguém na Sua Casa) e Fabrizio Guido tenham carisma e funcionem bem tanto separados quanto juntos, falta uma atenção para que o conjunto do filme se acerte.

Assim, Negra como a Noite vai se equilibrando em suas irregularidades. Tematicamente é interessante e o conteúdo é divertido, afinal de contas, vampiros são sempre vampiros e não tem jeito de não querer dar uma olhada neles, mas é um filme que deixa a sensação de que poderia ser muito melhor se melhor cuidado. Porém, vai divertir e entreter. E vale pela ideia que traz, e pela reflexão que causa naqueles que não entendem e nunca prestam atenção a sua volta.

Um grande momento
Você foi mordida por um vampiro sem teto?

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Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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