Crítica | Festival

O Sonho do Inútil

Toda vizinhança têm seus tigres

(O Sonho do Inútil, BRA, 2021)
Nota  
  • Gênero: Documentário
  • Direção: José Marques de Carvalho Jr.
  • Roteiro: José Marques de Carvalho Jr.
  • Duração: 72 minutos

Realmente é muito curioso observar o desenrolar das camadas de uma produção como O Sonho do Inútil, que passa por tantos lugares conhecidos do espectador, mas sempre demarcando tão bem sua trajetória, e sem fazer concessão quanto ao “próximo capítulo”; há maturidade no olhar cinematográfico, muito mais do que no auto olhar, que determina a juventude de quem filma. Quando para de falar e simplesmente mostra, encena ou vive, a força daquelas imagens saltam da tela e encontram uma reverberação rara, mas que detém alguns expoentes no cinema atual. O cinema visto aqui, no entanto, é algo muito mais próximo de uma naturalização, portanto, sobra inteligência narrativa por trás do projeto.

Esse por trás atende pelo nome de José Marques de Carvalho Jr., ou Junior Sql, ou Sequela, ou o criador do grupo Inútil, que em poucas palavras, tentava no Rio de Janeiro seguir os passos do Jackass americano, com moldes parecidos, filmar videos insanos e ganhar alguma fama e respeitabilidade juvenil na internet. Isso é passado, o Inútil não existe mais, e Jr. hoje é um cineasta, já em seu terceiro longa. E sim, cineasta é a palavra acertada, embora compreenda-se (mas não aceita-se) um preconceito em torno do que o jovem de 31 anos já fez; quando ele abre a boca, no entanto, todos e qualquer preconceito se desfaz.

Na postura e na figura, Jr. é um menino como tantos outros; quando discorre sobre o que pretende, como pretende e o que o trouxe até aqui, a voz malandreada de um bom carioca não consegue esconder um misto de pureza com assertividade, e muito estudo, além de uma “história de vida” que já provocou o amadurecimento que esconde o adolescente que, hoje, não existe mais. Quando fala de si, mostrando sua imagem de 15 anos antes, o que vemos é um salto em dois tempos antagônicos, onde um menino entendeu que seus sonhos ficaram grandes demais para caber na sua zona; pássaros não voam à toa.

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O filme acompanha o olhar de seu diretor sobre a diluição da amizade entre cinco amigos, que vai se tornando mais rarefeita conforme os anos passam e as metas de vida vão se reconfigurando, de acordo com os desejos de cada um e suas possibilidades de realização. O mais interessante, no entanto, é a forma como seu autor se transforma na frente das telas, indo de um pólo a outro em sua obra, na forma como sofistica sua encenação que vai ganhando um corpo absolutamente identitário. Se cada um daqueles relatos ganham contornos indissociáveis, e também se libertam de obrigações estéticas conjuntas, é porque Jr. entende o ofício que abraçou – e que acaba por abraçá-lo também, em retorno.

Quando a montagem une a trupe de Johnny Knoxville ao inimitável Buster Keaton, e o diretor compreende a moldura onde foi gerado como realizador, é que sacamos que o futuro chegou para ele além do calendário. Praticamente o “exército de um homem só”, O Sonho do Inútil é uma obra absolutamente autoral no que concerne à definição mais primordial da expressão – Jr. é o faz-tudo no filme. Roteirizou, montou, fotografou, e expôs não apenas uma fatia periférica que não consegue escapar ao seu destino – ou que, na extremidade oposta, não faz outra coisa que não tentar mudar seu entorno – mas principalmente alicerça, talvez até sem as ferramentas menos óbvias, uma base para o seu futuro e o de outros como ele.

É genuína cada captura de imagem ali, do distanciamento do reencontro de Aluã com a mãe, a secura com que encara o pai de Douglas, tendo consciência de que aquela narrativa é maior do que uma pretensa autoralidade. A maturidade que o jovem oferece ao espectador, unindo os degraus de seus personagens e fazendo troça com os seus próprios degraus, guarda uma chama viva de potencial prestes a explodir. O Sonho do Inútil é uma experimentação que entende seu lugar no mundo, mas que também revela um cineasta que nem tem consciência ainda do tamanho do lugar onde está prestes a chegar. Ele quer muito, isso nós sabemos… isso ele mesmo diz.

Um grande momento
O pai de Douglas

[10º Olhar de Cinema – Festival Internacional de Curitiba]

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Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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