Crítica | Festival

Rio Doce

Compasso de espera

(Rio Doce, BRA, 2021)
  • Gênero: Drama
  • Direção: Fellipe Fernandes
  • Roteiro: Fellipe Fernandes
  • Elenco: Okado do Canal, Cíntia Lima, Claudia Santos , Carlos Francisco, Nash Laila, Thassia Cavalcanti, Amanda Gabriel
  • Duração: 90 minutos

Por trás dos descaminhos de uma vida flagrada sem rumo, a câmera de Fellipe Fernandes vai aos poucos configurando um norte para seu protagonista. Não é, no entanto, um retrato desejoso por quem quer que seja. Thiago está de mãos atadas diante dos últimos acontecimentos, passivo e sem brilho. Rio Doce, filme que está no Olhar de Cinema e abriga tal personagem, carrega uma órbita complexa de manufaturar, por se encontrar à deriva dos eventos, sendo arrastado até os próximos capítulos e alijado de qualquer expectativa. Ao contrário do que o cinema proporciona, isso é uma situação minimamente possível de proximidade com o real. O vazio.

O diretor, em seu primeiro longa após dois bem quistos curtas (O Delírio é a Redenção dos Aflitos e Tempestade), parece desejar filmar gatilhos cotidianos para um sem número de semi-acontecimentos, alguns que levam a algum lugar e outros que não remetem a qualquer coisa, nascem natimortas. Esse é um dos predicados de seu filme, ou de um filme: tendo conhecimento do que movimenta tradicionalmente uma narrativa, o filme se cerca de um punhado delas somente para logo adiante negá-las, sem qualquer cerimônia. Essa dinâmica cria um processo de expectativa mediante a tradição cinematográfica onde ganchos mais ou menos naturalistas são espalhados como pistas pelo quadro de roteiro; aqui, não há garantia de que as lacunas sejam completadas.

Todos os caminhos são apresentados e eventualmente desenvolvidos com a aposta narrativa no que cinema pernambucano nos convencionou a receber como naturalismo, mas graças ao trabalho fotográfico de Pedro Sotero (colaborador tradicional dos filmes de Kleber Mendonça Filho) Rio Doce não se contenta em não fazer de suas estripulias e criar uma camada de urgência às imagens concebidas por Fernandes, com sua predileção pelo travelling e por aproximações que também ajudam no andamento da história, e que desacertam essa constante decepção que o filme apresenta em seu roteiro.

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Dessa ideia de um universo de exceção dentro do nosso cinema, onde os eventos não existem para efetivamente acontecer, mas sim para proporcionar reflexões internas, o filme detém dessa escolha seu maior mérito, onde bifurca as decisões de seu protagonista, sugere a ele novas configurações possíveis justamente para que a angústia seja um sentimento constantemente acessado, reprocessado e retroalimentado pela chegada de novas. É erupção interna de Thiago que é processada por Fernandes, é seguir aquele jovem adulto já tão imerso em brasilidades e observar a vida ir até ele sempre com perguntas, nunca com respostas.

Suas relações são encadeadas por micro sugestividades que se conectam de maneira sutil aos próximos eventos, sem a necessidade de uma posterior revelação. Logo entendemos que essa é a força de Rio Doce, fazer seu personagem encarar que a porta vem sendo batida há tempos avisando do fim da adolescência, por isso o flagrante extremo naquela existência, chegar sem avisar e perceber que mesmo a ele esse pêndulo já soa cada vez mais próximo. Seu rosto é de uma estupefação que só permitimos acessar sozinhos, em silêncio, mas ele é percebido por outrem, como no almoço familiar para qual é arrastado, pela força dos acontecimentos alheios a ele.

Por flagrar essa humanidade dos que tão pouco legam à vida, esse movimento perpétuo de descontinuidade perante os próximos atos da existência, é que a sensação de estranhamento não perpassa apenas Thiago ou a indecifrável (essa era a intenção mesmo) interpretação de Okado do Canal, mas aporta no espectador, tão mal acostumado com respostas, com soluções, com facilidades. Aqui, o compasso é o da espera contínua, onde Okado se sobressai sempre perplexo, com a certeza de que não escolheu nada daquilo, e que sua função é a de guia por entre os escombros de outros tipos interrompidos como ele.

Um grande momento
Almoço de família

[10º Olhar de Cinema – Festival Internacional de Curitiba]

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Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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