Crítica | Festival

Ursa

Dois motes contrastantes

(Ursa, BRA, 2021)
Nota  
  • Gênero: Drama
  • Direção: William de Oliveira
  • Roteiro: William de Oliveira
  • Elenco: Adriana Sottomaior, Diego Perin
  • Duração: 70 minutos

O cinema narrativo nacional demanda mais cobrança do que a experimentação. Não se trata de perseguição, pura e simples, mas de códigos que são acessados por uma construção tradicional do qual o cinema de invenção está mais liberto, porque sua busca caminha em outras raízes. Tendo dito isso, um filme como Ursa acessa lugares dramáticos de forte impacto, exibe momentos de engajamento social e até político de muita relevância, e exibe suas potencialidades com muita competência. Sua discussão, no entanto, está restrita ao que é mostrado e verbalizado, sem ocupar uma discussão que sobreviva ao filme e aos seu trabalho narrativo. É tudo essencial ao que é contado, e não vaza para uma análise intrínseca longe do conteúdo apresentado e forjado em dramaturgia.

Estreia de William de Oliveira em longas, o filme conta com duas faixas de roteiro paralelas, uma toxicamente masculina e uma compassivamente feminina. Correndo por menos de 24 horas, essas linhas de personagens só se esbarram no últimos 5 minutos, embora suas trajetórias sejam intercaladas. Lado a lado, temos a sobreposição de um evento que muda radicalmente a vida de Viviane e de Jonas, a partir das consequências seguintes à ele. Nada a destituir nessa decisão, é um ponto narrativo válido e já utilizado anteriormente com resultados positivos. Aqui, as escolhas feitas de detalhamento de circunstâncias e de desenho (narrativo e de moldura de seus tipos) levam o longa para um lugar menos sombreado, todo muito explícito, o que tira a subjetividade possível em um debate posterior.

Jonas é uma figura que se apresenta de uma maneira neutra, enquanto Viviane é um símbolo de positividade. Quando as curvas dela começam a pender para uma coluna mais humana, tirando de si um heroísmo tradicional, ele perde as nuancee conforme a narrativa corre, transformando-se em alguém plano, sem curvas que o forneçam tridimensionalidade. A neutralidade das primeiras cenas de Ursa se desfaz com muita rapidez, e o personagem se rende a uma vilanização que diminui a obra e as discussões que poderiam gerar a partir dela. Mesmo seu envolvimento com a cachorra, que poderia trazer humanidade a ele, só tende a aumentar suas linhas de discórdia com o externo a ele. Não é o caso de um personagem não poder ser plano, mas o quanto disso atrapalha a configuração geral de uma obra, confundindo qualquer que tenha sido seu discurso.

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Como já descrito, a realização propriamente dita guarda qualidades e acertos. Enquadramentos que denotam uma leitura mais sutil de suas situações acabam esbarrando na linha mestra geral, que também acabam por ressignificar as próprias imagens. A corrupção de um discurso humanista através do que pretende mostrar em um dos protagonistas de uma obra, depreende o todo e mortifica o conjunto. Apesar dos esforços em nos colocar em um debate rico de possibilidades, todas acabam vazando apenas para o melodrama, e não para uma substância outra; não seria uma questão se essa tivesse sido a aparente escolha do filme até então.

Ursa não pode ser acusado, no entanto, de não servir dramaturgia suficiente para contemplar a dupla protagonista. Se Diego Perin precisa equilibrar seu talento em um mote que danifica sua estrutura de representação, e ele faz o que pode pra contornar isso em seu corpo (a cena do encontro final dele com Ursa é boa), Adriana Sottomaior é uma explosão em cena, fazendo o que pode com o farto material oferecido. Um belo desempenho, que também só foi possível porque há dedicação coletiva na construção de Viviane, que sobrevoa pelo roteiro sempre levando sua verdade e suas contradições de ser humano.

O curta de Oliveira, Aquele Casal, premiado e muito exibido em festivais no país, deixa evidente suas qualidades de contador de histórias. Aqui em Ursa, a estrutura dramática que evidencia uma complexidade enquanto diminui outra é um prejudicial para a fruição, mas não deixa de ser promissor que um cineasta apareça em sua estreia com uma estrutura narrativa já tão definida e escolhas (ao menos em uma das partes) tão concisas. A observar seu futuro.

Um grande momento
“Eu sinto muita fome”

[10º Olhar de Cinema – Festival Internacional de Curitiba]

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Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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