(The Ballad of Buster Scruggs, EUA, 2018)
Western
Direção: Ethan Coen, Joel Coen
Elenco: Tim Blake Nelson, Clancy Brown, Danny McCarthy, David Krumholtz, James Franco, Stephen Root, Liam Neeson, Harry Melling, Tom Waits, Bill Heck, Zoe Kazan, Grainger Hines, Jonjo O’Neill, Brendan Gleeson, Saul Rubinek, Tyne Daly, Chelcie Ross
Roteiro: Jack London, Stewart Edward White (contos), Ethan Coen, Joel Coen
Duração: 133 min.
Nota: 7 ★★★★★★★☆☆☆

Revisitar o Oeste. Mais, revisitar o western, cultura raiz dos Estados Unidos, aquele que expunha – e propagandeava – a “gloriosa” conquista e origem de um povo em filmes e livros. A tarefa pode ser levada a sério, como foi pelos próprios irmãos Coen em 2010, mas, como novos tempos pedem novas perspectivas, é muito mais interessante se tratada de maneira crítica e original. É o que a dupla faz em A Balada de Buster Scruggs, disponível na Netflix. Com a ironia que lhes é particular e uma estética apurada, Joel e Ethan Coen ilustram aquele cheiro de morte disfarçado de progresso que definiu todo o período e a produção cultural da época e da região.

O filme é composto por seis contos independentes: aquele que dá nome ao filme, Near Algodones, Meal Ticket, All Gold Canyon, The Gal Who Got Rattled e The Mortal Remains. Cada um tem a sua forma e seu ritmo, mas todos circundam o mesmo tema: a morte. Os Coen trazem para suas histórias elementos marcantes do western: o duelo, a forca, a busca do ouro, as diligências, e os caçadores de recompensa, entre outros, com o acréscimo de artistas de rua.

Em The Ballad of Buster Scruggs, o simpático cantor rápido no gatilho, vivido por Tim Blake Nelson, se envolve em uma briga de pôquer. O conto fala sobre tempo e impermanência sem nunca deixar de tirar sarro disso. O difícil, no fim das contas, é lidar com as pessoas. Com uma estética que se afasta dos filmes de duelo, o que se vê lembra muito os antigos quadrinhos de western. Além disso, a escolha por uma aproximação com o gênero musical, tendo em vista aquilo que conta, também chama a atenção.

James Franco é o protagonista de Near Algodones. Um assalto de banco que dá errado o leva à condenação sumária por enforcamento. O conto, que opta por um ritmo mais rápido que o anterior e por um visual que reforça o solitário, fala do inusitado, do acaso, de eventos que ocorrem sem nenhum aviso e podem transformar o rumo de uma história ou serem lamentados dadas as situações inescapáveis. Diferente do anterior, este investe em um humor menos caricato.

Meal Ticket chega como uma quebra naquilo que se estava vendo. Mais azulado, assim como o clima que traz, conta a história de um artista de rua com deficiência que, sobre um banco, repete monólogos dia após dia. O desajuste das palavras com aquela realidade encontra o humor cruel com o qual os diretores gostam tanto de trabalhar. Ver um homem sem membros citando as palavras do “Ozymandias” de Shelley é o melhor exemplo dessa sensação. O conto segue um caminho repetitivo e incômodo para tocar na piedade como validador para a audiência e no gradual abandono da arte. Muito está nas atuações do artista é vivido por Harry Melling e seu “agente” por Liam Neeson.

Voltando àquilo que esperamos de um western, a busca solitária do ouro é o tema do conto All Gold Canyon, adaptação do conto homônimo de Jack London. O isolamento que leva a poucas palavras e um ambiente mais verde, exatamente como narrado por London, causam certo distanciamento do que foi se construindo até então. “Aqui todas as coisas descansam”, menos do homem vivido por Tom Waits, que busca o ouro e o encontra. Falando de ganância, aqui há uma mudança na abordagem da morte e, de certo modo, o êxito.

The Gal Who Got Rattled é o mais próximo de um western romance que os irmãos Coen podem chegar. Tendo como pano de fundo o caminhar de uma diligência. Mais uma vez, a origem é literária, de um conto de Stewart Edward White, mas um pouco menos literal que a anterior. Inventando novas conexões, a ironia dos Coen transformam a fria relação entre o casal, vivido por Zoe Kazan e Bill Heck em algo divertido de se acompanhar e é curioso que tudo culmine numa espécie de obediência cega, pelo medo, e no impulso. Algo que nem sempre traz boas consequências.

Para completar o livro de histórias, The Mortal Remains confina cinco personagens dentro de uma carruagem que não para. Ali estão um andarilho, um francês apostador, uma senhora carola, um caçador de recompensas e seu ajudante rumo a uma estalagem qualquer. O longa, que lembra um pouco a primeira parte do último filme de Quentin Tarantino (o também western Os Oito Odiados), se concentra nos diálogos. Dentro daquele espaço delimitado e opressivo, falam da vida, das relações e daquilo que não se pode evitar. E não há nada mais inevitável do que aquilo que está por trás de todas as histórias contadas.

A ideia de juntar histórias tão diversas não é algo que costuma funcionar sempre, mas Joel e Ethan Coen conseguem fazer com que as histórias de A Balada de Buster Scruggs se complementem além da tela e, no inusitado, criam uma expectativa que é atendida a contento com as histórias que se seguem.

Há toda um cuidado técnico que precisa ser destacado para o sucesso da produção. Seja no vigoroso desenho de produção de Jess Gonchor na estilização daquele novo Oeste, ou na música de Carter Burwell, completamente ambientada. Outro destaque óbvio está para o trabalho de direção de fotografia do francês Bruno Delbonnel, que cria ambientes e dinâmicas completamente diferentes para cada um dos contos.

Mesmo que não seja homogêneo, que o gostar de cada uma das histórias dependa muito daquele que assiste ao filme e haja uma resistência prévia a histórias independentes, a revisitação da tradição, com críticas, sarcasmo e uma nova leitura de acontecimentos usuais ao gênero de A Balada de Buster Scruggs surpreende. Um Coen como já não se vê há algum tempo.

Um Grande Momento:
“Nas minhas costas!”

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