(BlacKkKlansman, EUA, 2018)
Comédia
Direção: Spike Lee
Elenco: Alec Baldwin, John David Washington, Isiah Whitlock Jr, Robert John Burke, Brian Tarantina, Arthur J. Nascarella, Ken Garito, Frederick Weller, Adam Driver, Michael Buscemi, Laura Harrier, Damaris Lewis, Ato Blankson-Wood, Corey Hawkins, Dared Wright, Ryan Eggold, Jasper Pääkkönen, Paul Walter Hauser, Ashlie Atkinson, Topher Grace
Roteiro: Ron Stallworth (livro), Charlie Wachtel, David Rabinowitz, Kevin Willmott, Spike Lee
Duração: 135 min.
Nota: 8 ★★★★★★★★☆☆

Infiltrado na Klan, novo filme de Spike Lee que ganhou o Grande Prêmio do Júri no último Festival de Cannes e chega hoje ao cinema, tem uma história inusitada. Ron Stallworth foi o primeiro policial negro da polícia de Colorado Springs e trabalhou como infiltrado na Ku Klux Klan. Ao saber que a organização terrorista buscava novos integrantes através de um anúncio de jornal, Stallworth entrou em contato e fingiu ser um homem branco racista e antissemita. Ele conversava com os membros por telefone e mandava um colega branco – e judeu – para os encontros.

Spike Lee resgata a operação, e o modo como constrói essa história do fim dos anos 1970 deixa o recado e chama ä reflexão. Havia pouco mais de dez anos que os direitos civis começavam a ser conquistados pelos negros e o repúdio dos reacionários extremistas brancos era evidente. O que deveria deixar de existir com o tempo, além de nunca ter desaparecido, 40 anos depois vê o ressurgimento de uma onda de ódio e discriminação. É como se cada passo dado gerasse energia para supremacistas brancos, num movimento triste e infinito. E não só nos Estados Unidos, mas no mundo.

Para alcançar esse movimento em Infiltrado na Klan, o diretor volta-se ao poder da propaganda, fundamental para o surgimento, resgate, crescimento e manutenção de associações nocivas como a Klan. Ali estão O Nascimento de uma Nação, de D. W. Griffith, principal responsável pelo resgate do então adormecido grupo após o terror do massacre de Colfax e da aprovação das leis Jim Crow; o discurso excludente vez por outra transmitido e valorizado pelos meios de comunicação, personificado na figura do Dr. Kennebrew Beauregard (Alec Baldwin); ou um presidente eleito que usou esse ódio reacionário da população em campanha e viu como primeira grande manifestação de seu governo a marcha supremacista de Charlotteville.

O viés reacionário desse tipo de movimentação está no filme, pois reage ao crescimento e legitimação do movimento dos Panteras Negras, a toda uma afirmação negra estudantil e a uma tardia modificação social, que via espaços sendo ocupados efetivamente por negros. É contra isso tudo que também se insurge a célula terrorista de Colorado Springs.

Spike Lee trabalha bem toda essa movimentação social tendo Stallworth (John David Washington) como foco principal. Ele, às vezes representando por Flip Zimmerman (Adam Driver), é quem transita entre os dois universos, o da afirmação e o do ódio. Este determinado pelo tom fanático, tacanho e jeca que sempre esteve por trás da Klan; aquele pela exposição da cultura e do pensamento negro, e reafirmação do discurso de empoderamento, com relatos do passado e aspirações de um novo futuro.

Entre o grupo ativista e o grupo terrorista, estão outros espaços também utilizados para tratar de um preconceito que não tem um lugar certo, mas foi criado e é alimentado dentro de cada pessoa. O diretor até escolhe personagens-chaves para expor essa existência estrutural do racismo, e exagera bem no tom destes, mas faz com que apareça também em outros personagens que se julgam livres do preconceito.

Outro personagem que serve bem ao propósito de Spike Lee é Flip Zimmerman, o judeu que fazia as aparições presenciais junto aos membros da Klan. O modo como ele vai descobrindo-se como alvo de preconceitos, reafirma a identificação do indivíduo e explicita que aparências importam sim. Ele, mesmo sendo alvo de discriminação, pode estar ali junto ao grupo, o que é impossível a Stallworth.

Variando entre o humor e a tensão, O que mais surpreende em Infiltrado na Klan é o modo como a história é construída de modo a trazer o êxito e depois sufocá-lo, representando com o micro essa sensação de estar sempre correndo atrás de algo que só se pensa ter alcançado, mas que volta a ruir, com uma força por vezes muito maior e com um número inacreditável de adeptos.

Spike Lee faz isso muito bem. Depois de um discurso indigesto, literalmente coberto por imagens ainda piores, deixa que o senso de justiça social domine o filme, construindo a tensão para que se chegue à vingança histórica esperada. A sensação de triunfo é calculada e está presente até no revés que encontra dentro da trama, superando-o. Mas o que se busca é o hoje, e um hoje que não deveria mais assistir. Infiltrado na Klan chacolha o espectador com imagens documentais de uma verdade imperante atualmente nos Estados Unidos, de exclusão e perpetuação do racismo e do antissemitismo. É como acordar para a verdade, aquela muito menos estilizada do que o que se vira nos minutos anteriores, a real e desoladora.

Além de uma obra de grande valor artístico, com uma técnica impressionante, boas atuações e tudo devidamente no lugar, a mensagem de Spike Lee é urgente e precisa ser acessada por todos. Daqueles filmes que precisam ser conhecidos e reconhecidos.

Um Grande Momento:
A foto.

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