Crítica | Streaming

Treze Vidas

Não dura até o mês que vem

(Thirteen Lives, EUA, 2022)
Nota  
  • Gênero: Ação
  • Direção: Ron Howard
  • Roteiro: Don MacPherson, William Nicholson
  • Elenco: Viggo Mortensen, Colin Farrell, Joel Edgerton, Tom Bateman, Paul Gleeson, Sahajak Boonthanakit, Weir Sukollawat Kanarot, Natvara Hongsuwan, Lewis Fitzgerald, Zahra Newman
  • Duração: 147 minutos

Ao contrário de grande parte dos cinéfilos e de meus colegas, não tenho grandes traumas com Ron Howard. Obviamente que seu Oscar (Uma Mente Brilhante) é criminoso, como tantos outros, mas até nesse lugar das “injustiças do careca dourado”, seu trabalho ainda guarda dignidade e algum propósito. Quando olhamos sua carreira para longe desse momento, ela se divide entre momentos apelativos e desnecessários (Apollo 13 e A Luta pela Esperança) e alguns títulos muito bons (O Preço de um Resgate e Cortina de Fogo), com pelo menos um injustiçado que, pra mim, encabeça sua filmografia (Frost/Nixon). Esse novo Treze Vidas, estreia de hoje da Amazon Prime Video, tinha tudo para fazer parte do primeiro grupo, e simplesmente não faz parte de grupo algum. 

É impensável que alguém vá lembrar desse título até o fim do ano – quiçá, no mês que vem já terá desaparecido de qualquer traço da memória. Sua envergadura me fez recordar de “clássicos” do lado B da Sessão da Tarde, tais como O Resgate de Jessica e Enchente: Quem Salvará nossos Filhos?, sucessos de audiência na Globo oriundos da tv americana. Em comum a todos esses filmes, existe uma burocracia no tratamento de uma história real, que parece ser esquadrinhada no roteiro de maneira protocolar, apenas filmando eventos que aconteceram na realidade. Diferente de lá, aqui esperava-se uma superprodução dirigida por um vencedor de inúmeros prêmios da indústria e com um trio de astros de primeira grandeza protagonizando. O resultado? Qualquer coisa. 

Parece não haver qualquer empenho de contar essa história, e vez por outra, mesmo a burocracia encontra algo melhor a fazer e dá um tempo do filme. O espectador muito rapidamente começará a pensar o mesmo; trata-se de uma história muito recente cujo desfecho todos lembram. Os motivos para assistir a recriação do resgate das 12 crianças tailandesas e seu técnico de futebol presos em uma caverna inundada são muito ínfimos para sustentar quase 2 horas e meia de duração, sem emoção ou sedução, de qualquer tipo. Seguimos acompanhando, e perguntando o que nos faz assistir essa falta de interesse em tornar seu conjunto minimamente atraente. Pelo contrário, Howard e sua equipe parecem querer provar que essa fórmula de tragédia biográfica deveria ser enterrada de uma vez por todas. 

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Apesar de dedicar todo seu ponto de partida à nos apresentar aqueles jovens e sua situação inicial, o filme os abandona assim que os heróis brancos e europeus se juntam ao filme. É louvável (aí um ponto positivo!) que o tailandês seja mantido durante toda a duração e seu elenco tenha sido cooptado localmente, essa produção rodada há 30 anos atrás seria, no mínimo, dublada em inglês. Mas o que adianta respeitar a língua pátria de seu enredo, se os personagens-chave da narrativa são jogados para escanteio? Acabamos por perder, por exemplo, a relação estabelecida entre alunos e professor, que nunca é acusado pelo que fez e ainda é adorado por seus protegidos. Essa situação, que foi tão discutida nos tablóides e renderia cenas relevantes, se limita a rápidos três minutos, sufocando um mote bastante interessante. 

Em cena, um fotógrafo grandioso como Sayombhu Mukdeeprom (de Me Chame pelo seu Nome) simplesmente não tem serviço a mostrar, ainda que as cenas de mergulho sejam as melhores da produção – mas também elas foram editadas, em cada passagem e na totalidade. Aliás, o trabalho de James Wilcox é exemplar no que não fazer na sua cadeira; é no mínimo pedestre o que é apresentado na edição, que picota os focos de ação e impede que sejam criados momentos de tensão, que raramente dão as caras. O trio de protagonistas (Viggo Mortensen, Colin Farrell e Joel Edgerton) igualmente tem pouco a fazer, praticamente nada de substancioso, mas Farrell ainda impõe uma postura a seu personagem que cria um retrato sincero ali; nada de relevante, no geral. 

Ao olhar para uma carreira que já nos deu Cocoon, Splash, Willow e Rush, a questão mais óbvia é sobre o desaparecimento momentâneo da faísca que um operário padrão acima da média como ele já empregou. Treze Vidas é um daqueles títulos que não nos fornece gás nem para indicar para os amigos num fim de semana de estreia, que dirá tentar dissecar suas ferramentas. Pensando aqui em algum outro ponto positivo, tem a secura com que ele entrega esse material que seria facilmente lacrimogêneo. Aqui, o contrário do habitual acontece: tentando fugir de uma pancada emotiva, o filme carece de nos situar na comoção que se tornou aquele resgate, em conhecer e nos fazer torcer por aquelas famílias. Tudo passa em nuvens brancas e sem nenhuma vida, quase como uma obrigatoriedade da produção a cada nova etapa de um processo que não interessa a ninguém em cena. 

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Um grande momento
Saman

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Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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