Crítica | Streaming

Troop Zero

(Troop Zero, EUA, 2019)
Gênero
Direção: Direção
Elenco: Mckenna Grace, Viola Davis, Jim Gaffigan, Allison Janney, Charlie Shotwell, Milan Ray, Johanna Colón, Bella Higginbotham, Mike Epps, Ashley Brooke, Ash Thapliyal, Kai N. Ture, Kenneth Wayne Bradley, Edi Patterson, Maureen Brennan
Roteiro: Lucy Alibar
Duração: 94 min.
Nota: 8 ★★★★★★★★☆☆

Poucas vezes a união entre uma canção e uma cena de um filme foi tão feliz e significativa quanto no ápice de Troop Zero, quando o grupo de crianças escoteiras se apresenta ao som de “Space Oddity”, fantasiadas de astronauta, planeta Terra, estrelas e como o próprio marciano Ziggy Stardust, alter ego de David Bowie.

O cantor britânico com suas criações musicais tornou a vida de muita gente menos solitária e, com seus versos, atitudes e visual, pregou o amor e a aceitação com muito mais eficácia que religiões. Esse legado, que atravessa galáxias e o próprio tempo e espaço (Bowie faleceu em 2016), repousa na doçura com que a dupla Bert & Bertie utiliza a canção mais icônica do músico em seu filme de estreia, como uma maneira de demonstrar que aquelas crianças reverberam o amor mesmo onde só existe deboche e aparências.

Exibido em Sundance no ano passado, o filme chegou esse ano ao streaming da Amazon e é um achado em meio a catálogo – até mais fácil de garimpar do que na Netflix, com sua mania quase ditatorial de impor o que supostamente se quer ver a partir dos algoritmos.

A história foca nos dilemas existenciais e super mundanos da menina Christmas. Ela é órfã de mãe, vive com o pai benfeitor em uma comunidade rural e além do comportamento tomboy tem dificuldades para se relacionar com outras crianças, que fazem bullying com ela por fazer “xixi nas calças” com frequência. Seu único suporte emocional vem do amigo fluido fã de rock e moda Joseph e da assistente do pai Raylee.

Mckenna Grace é talentosa e fofíssima, sim, inclusive super parecida com Kiernan Shirpka, a bruxa Sabrina adulta – ela faz a personagem quando criança na série da Netflix. A dupla que ela faz com Viola Davis (intérprete de Raylee) é um grande trunfo desse filme. O afeto que as une transborda, mesmo que elas sejam bem diferentes. E é curiosa a dinâmica entre as duas grandes atrizes do elenco: Viola como a defensora das crianças desajustadas e Alisson Janney como a chefe das escoteiras birdie, tão elegante quanto maldosa. Até o pai de Christmas, vivido pelo comediante Jim Gaffigan, tem uma doçura quase patética, que acrescenta mais uma dose de torcida pelo sucesso das crianças.

Dirigido pela dupla de cineastas Bert & Bertie (Katie Ellwood/Amber Templemore-Finlayson), Troop Zero tem roteiro de Lucy Alibar, que também escreveu Indomável Sonhadora, outro conto de coming of age. A estética Indie remete quase que automaticamente aos filmes de Wes Anderson – especialmente Moonrise Kingdom – e a exemplares de ritos de passagem da juventude como Capitão Fantástico ou Pequena Miss Sunshine.

Porém, Troop Zero supera os clichês do gênero tendo dna próprio, especialmente ao apostar nos laços que unem aquelas crianças vistas como desajustadas pela sociedade e, como elas se encontram na arte, na música, na amizade e na catarse provocada pela fantasia espacial, encontram também o próprio lugar no mundo.

Um Grande Momento:
“Eu estou aqui.”

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Lorenna Montenegro

Lorenna Montenegro é crítica de cinema, roteirista, jornalista cultural e produtora de conteúdo. É uma Elvira, o Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema e membro da Associação de Críticos de Cinema do Pará (ACCPA). Cursou Produção Audiovisual e ministra oficinas e cursos sobre crítica, história e estética do cinema.
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