Crítica | Streaming

Um Crush para o Natal

Festa inclusiva

(Single All the Way, EUA, 2021)
Nota  
  • Gênero: Comédia
  • Direção: Michael Mayer
  • Roteiro: Chad Hodge
  • Elenco: Michael Urie, Luke MacFarlane, Barry Bostwick, Jennifer Coolidge
  • Duração: 99 minutos

É muito complexo criar uma fatia contrária a uma narrativa tão celebratória de um universo que ainda é marginalizado como é ‘Um Crush para o Natal’, longa deliciosamente LGBTQIA+ (ou, nesse caso específico, gay mesmo) que acaba de estrear na Netflix com sucesso e visibilidade. Assim como a produção nataliana de 2020 ‘Alguém Avisa?’, estrelada por Kristen Stewart, essa aqui lida com o universo familiar ainda mais inclusivo – na verdade, não há qualquer lastro mínimo de homofobia em qualquer linha do roteiro, nem alusão. O que há é uma aceitação irrestrita e nada ilusória sobre um rapaz solteiro e sua família ansiosa para que ele arrume um príncipe.

Michael Mayer, vencedor de Tonys teatrais, e de experiências anteriores com narrativas homossexuais (a adaptação de ‘Uma Casa no Fim do Mundo’), parece correr em um trilho seguro de aceitação e exaltação, o que de fato a dramaturgia precisa. Anualmente vemos a comunidade ‘queer’ sendo retratada através de seus problemas, sofrimentos, dilemas e ausências na tela grande, então um filme como esse não apenas representa um outro lado dessa comunidade, mas um lado que não é representado, simplesmente, como se nós, gays, não fossemos destinados à felicidade. A movimentação é válida, e o filme acerta na despretensão como mola propulsora do todo, sem deixar de debater pontos válidos. 

Philippe Bosse/Netflix

Afinal, homens gays têm realmente dificuldade de construir relações duradouras e com intenções frutíferas. Somos constantemente acusados de promíscuos, e agimos muitas vezes como a vestir essa carapuça auto imposta, mas existe sim a fatia (que demora a dar as caras, eu sei como é difícil…) que está disposta a uma relação monogâmica séria, e nessa seara se encaixa Peter, o protagonista vivido por Michael Urie. Ele quer, ele tenta, ele insiste, mas parece ter o “dedo podre” para encontrar alguém disposto ao mesmo, e com isso enfrenta anualmente sua horda familiar ainda mais confiante de que ele perca sua solteirice.

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O que arranha a “moral da história” de ‘Um Crush para o Natal”, a despeito de suas maravilhosas – e, na maior parte do tempo, bem sucedidas – intenções, é um conceito que o filme entende como uma pecha heterossexual, mas que ele insiste em se apossar. Porque nós, gays, estamos destinados a encontrar o amor com nosso melhor amigo? Aquele esquema que todo mundo já brincou, “se tudo der errado, a gente fica junto”, não é um conceito que foi além da bebedeira do fim de noite da boate. Essa ideia que, insisto, o próprio filme verbaliza ser ultrapassada, de que bastam dois homens gays para um casal surgir, é ultrapassada e o filme acaba, mesmo sem querer, corroborando essa ideia. 

Ainda que aponte que existem saídas para Peter, que é um rapaz inteligente, bonito, bem sucedido, ainda jovem, e as apresente para ele, o filme acaba soando, aqui e ali, como uma melancólica aceitação de que não há como mudar o que se vende pela normatividade. Além disso, para um filme tão francamente inclusivo e sem qualquer restrição a seus temas (incluindo um escritor de livros infantis amado pelas crianças como um dos protagonistas), incomoda que apenas nos últimos 5 minutos vejamos BEIJOS bem filmados – o que tinha até ali eram claras demonstrações de timidez, com a câmera escondendo o que não passam de breves encontros de lábios; porque essa decisão?

Apesar desse incômodo flagrante, ‘Um Crush para o Natal’ é uma festa para quem ainda encontra sentido em produções segmentadas para um gueto, o que já não faz muito mais sentido em plena véspera de 2022. Um filme absurdamente feliz, alto astral, cheio de personagens positivos interpretados por atores de muito talento (como Kathy Najimy e Jennifer Coolidge) em uma produção cheia de afeto. Não é pouco para o nosso segmento e precisa ser celebrado como uma autêntica ceia de Natal, ainda que existam passas no arroz e uma cidra de gosto duvidoso na mesma mesa.

Um grande momento:

O primeiro encontro com James

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Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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