Crítica | Festival

Achados Não Procurados

Uma questão de classe

(Achados Não Procurados, BRA, 2021)
Nota  
  • Gênero: Drama
  • Direção: Fabi Penna
  • Roteiro: Fabi Penna, Wander Levy
  • Duração: 102 minutos

Quem ri o que quer é rido o que não quer
Molière 

Há uma falsa impressão de que fazer humor é algo mais fácil do que realmente é. Do mais escrachado àquele sutil, impresso nas entrelinhas, a comédia necessita de precisão para funcionar. Achados Não Publicados, longa de estreia de Fabi Penna, quer passar sua mensagem através do sarcasmo, tentando fazer graça com a hipocrisia, mas não consegue encontrar o tempo ou o tom certos, o que compromete todo o projeto. 

O filme conta a história dos Borges, uma família da alta roda catarinense que descobre as falcatruas e traições amorosas do pai após sua morte. Para manter as aparências e a boa reputação do sobrenome, os filhos tentam eliminar todas as provas, mas as coisas saem do controle. A diretora, que também assina o roteiro ao lado de Wander Levy, quer falar dessa elite branca patriarcal de Santa Catarina e do País; das contradições entre atos e discursos; de corrupção, adolescência, relação patronal, e vários outros temas.

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Tudo o que se vê e se supõe desses meandros está em Achados Não Procurados, desde a batida história do caso com a melhor amiga até a dondoca que faz tudo errado mas não perde um culto. Penna vai tentando construir o filme em cima do humor que situações como essas provocam, mas encontra entraves num certo descompasso e na falta de profundidade. A longa duração, excesso de personagens e atuações, cada uma em um registro e com uma intenção de atmosfera, também não ajudam muito.

O roteiro ainda tem outras questões, em especial no que diz respeito ao desenvolvimento de personagens. Se a trama gira em torno da família Borges, e se ancora nos dois filhos, outras duas personagens surgem como a representação do conflito de classe no filme: as empregadas domésticas. Embora em reafirmações imagéticas e contextuais com intenção de crítica, ambas se apresentam no vazio funcional já conhecido de outras obras de ficção.

Uma delas, Juracy, a quem se digna estabelecer alguma tentativa de arco, surge em um lugar bem complexo para a realidade de 2021, a de relação direta com a protagonista, e é preciso,  sempre, ter muito cuidado e responsabilidade com os símbolos. Em um país onde os abismos sociais são uma marca definidora, é natural que o tipo de cena de confrontação visto no longa esteja presente em muitos filmes. Com Laurinha e Juracy sentadas lado a lado no sofá, Penna talvez tente encontrar alguma coisa de humor, mas o mal desenvolvimento da personagem da empregada dá lugar não só a compreensões confusas como a incômodos e sentimentos de desrespeito. 

Porém, mesmo com toda essa condução desordenada e controversa, Achados Não Procurados nem sempre segue os caminhos óbvios. Enquanto todos olham para um lado, certos da tragédia classista tão usual na ficção, a história caminha para outro e essa quebra da expectativa, o fugir do lugar comum, é o que o filme tem de melhor. Pena que falte um entorno consistente, com diálogos mais elaborados, atuações equalizadas, melhor distribuição de eventos e uma boa rítmica. E falte também a percepção de que o sarcasmo ou a ironia talvez não estivessem funcionando tanto assim.

Um “grande” momento
Punta

A crítica viajou ao 16º Festival Audiovisual de Campina Grande – Comunicurtas UEPB a convite do evento.

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Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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