Crítica | Outras metragens

Tereza Joséfa de Jesus

(Tereza Joséfa de Jesus, BRA, 2021)
Nota  
  • Gênero: Experimental
  • Direção: Samuel Costa
  • Roteiro: Juliana Jesus
  • Elenco: Juliana Jesus
  • Duração: 7 minutos

Lidar com a dor. Passar por ela, sentir na pele, olhar nos olhos, dormir sob seu peso. Superar sem deixar de sentir. Voltar a tudo. Criar. Transformar o processo. Dar à dor cor e som. Reconfigurar a jornada. Reescrever a história. Sentir de novo. Gravar a existência encenada. Preencher o vazio. Projetar a dor. Contar sua história. Colocar na tela a história de Tereza Josefa de Jesus… ou da ausência de Tereza Joséfa de Jesus.

A atriz, poetisa e roteirista Juliana Jesus saúda sua mãe Tereza Joséfa nesse curta dirigido por Samuel Costa. O encontro dos dois é potente. Ela é habilidosa com as palavras e sua conexão com aquele passado é o norte que guia toda a jornada. Ele faz bem suas colagens de imagens, cria relações visuais para resistir às pancadas que ficam daquilo que foi dito. Guilherme Claudino, o diretor de arte, aparece como uma terceira energia na criação de um imaginário que dá calor às lembranças.

O que se ouve e vê é doloroso, triste, e não seria diferente. A força vem com a identificação: relação materna, a origem, o fim, a ausência, e com ela chega uma infinidade de fatos, sensações e sentimentos que se encontram e se misturam. Tereza Joséfa de Jesus fala de Estado e comunidade, família e religião, memórias e desejos, amor e saudade. E se ele fala alto e forte em qualquer tempo, hoje, especificamente agora, ele grita.

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Há em Costa e Jesus um controle para dar forma ao luto e compor seu filme-poema. Gravado em película, dando materialidade à dor que é perder alguém, e voltando a outro modelo de produzir, com preparação e tempo muito diferentes do digital, o curta não tem dúvida do que quer mostrar. Embora o mergulho nas fases do luto seja profundo e angustiante, e haja — sempre há — algo de cura no recontar essa história, o distanciamento na hora da feitura é essencial ao resultado.

Se tudo ali se encontra é porque se quer mostrar daquele jeito, naquelas cores, disposição e ritmo. A falta de constância e a repetição de passagens, os sons difusos, as sensações de aprisionamento e o posterior encontro com o conforto são trabalhados em minúcias. Há delicadeza, força, raiva, carinho, e sem nenhuma obviedade. Nessa tradução de sentimento pessoal em consciência estética, Tereza Joséfa de Jesus é um filme que chega longe dentro de quem o assiste, por associação, admiração ou envolvimento. É potência no dizer, no ouvir e no sentir.

Um grande momento
Ter o passado consigo

A crítica viajou à 8ª Mostra de Cinema de Gostoso a convite do festival

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Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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