Crítica | Cinema

A Babá – O Chamado das Sombras

Baba Yaga voltou americanizada

(Яга. Кошмар тёмного леса, RUS, 2020)
Nota  
  • Gênero: Terror
  • Direção: Nathalia Hencker, Svyatoslav Podgaevskiy
  • Roteiro: Natalya Dubovaya, Ivan Kapitonov, Svyatoslav Podgaevskiy
  • Elenco: Oleg Chugunov, Glafira Golubeva, Artyom Zhigulin, Svetlana Ustinova, Aleksey Rozin, Maryana Spivak, Marta Kessler
  • Duração: 97 minutos

Uma das figuras mais interessantes do folclore eslavo é a Baba Yaga, justamente pela sua dificuldade de determinação. Seus contos, de origem incerta e transmitidos há gerações, já a fizeram assumir centenas de formas, índoles e motivações. A Senhora da Dor nem sempre foi má, mas, quando assumia esta condição, era péssima para as crianças desobedientes que insistiam em desobedecer os pais. Yaga, embora tenha o seu lugar, e ele sempre está muito próximo à natureza, aos bosques e às florestas; tem uma aparência que varia sem nenhuma cerimônia. Algumas vezes é a bruxa idosa, em outras, tem partes do corpo transformadas em animais ou outros elementos vegetais e minerais, pode ser luz, pode ser sombra, pode se transformar em memória. E ela é quase tudo isso em A Babá – O Chamado das Sombras.

A figura da Baba Yaga ganhou destaque recentemente na produção estadunidense A Bruxa da Casa ao Lado, primeiro grande hit no retorno dos cinemas depois da pandemia Covid-19. O horror juvenil da IFC Midnight levou milhares às poucas salas de cinema e aos muitos recém-abertos drive-ins da época, mantendo o filme no topo das bilheterias por semana. Justo que os russos pegassem a sua personagem folclórica e resolvessem desenvolver uma história com ela. Porém, com uma figura tão rica em representação, é um pouco frustrante ver como o longa acabar influenciado pela imagem criada pelo antecessor, tão apegado à ideias como a da memória, com tantos outros vieses possíveis de exploração. 

A Babá: O Chamado das Sombras
Divulgação

Com roteiro de Natalya Dubovaya, Svyatoslav Podgaevskiy e Ivan Kapitonov, A Babá – O Chamado das Sombras parte de uma premissa próxima da do conto de bruxas mais famoso: Egor é um jovem que, depois da morte da mãe, precisa conviver com seu pai, a nova esposa dele e a filhinha bebê do casal, algo que lembra vagamente o enredo do filme dos irmãos Pierce e tinha tudo para trilhar um caminho diverso. Isso se não fosse a abertura, esteticamente incrível, que, mesmo que aposte numa divisão de mundos interessantíssima liga os dois títulos e faz com que eles se aproximem cada vez mais à medida que os eventos vão acontecendo.

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Podgaevskiy, um amante do terror que traz em sua filmografia os bem mais fracos A Sereia: Lago dos Mortos, A Noiva e Dama do Espelho: O Ritual das Trevas, assina também a direção ao lado da atriz e estreante na função Nathalia Hencker. Se as identificações empobrecedoras estão presentes no roteiro, o cuidado visual de ambos com o filme empolga. Os ambientes frios e a arte minimalista e artificial do universo de Egor destacam o fantástico com o qual precisa começar a conviver. O contrário se pode dizer da realidade de Seta, sua melhor amiga, num presente carregado e antiquado, como um segundo caminho alegórico da relação geracional. 

A Babá: O Chamado das Sombras
Divulgação

E há a própria criação do fantástico que invadirá esses dois lados de um mesmo universo, com a elaboração da casa vazia daquele que tem a consciência do mal, a casa da floresta e seu entorno, e o próprio mal que transita entre os mundos, na figura da Yaga e na sua morada atualizadas para os tempos atuais. Além de vários traços próprios, como a elaboração de corpos com elementos diversos, o que, pertinente ou não à trama, é sempre visualmente impressionante, é possível perceber muitas influências em A Babá – O Chamado das Sombras que vão além da estética. A questão das fotos, a lã vermelha nas árvores, a casa na floresta e o mundo invertido trazem uma familiaridade por vezes incômoda a um filme que tinha tudo para ser original.

O cinema do diretor russo tem dificuldade em manter a história e isso não deixa de estar presente aqui, embora seja apaziguado pela presença da nova companheira. A dedicação à estética por vezes é tão excessiva que a própria história se vê relegada a segundo plano e personagens acabam perdendo-se no meio do caminho. Mesmo a trama do protagonista tropeça em repetições desnecessárias e em reafirmações que afastam-se daquilo que dá ao horror a sua principal razão de existir: a metáfora, aqui, muito clara e evidente. Assim, a lenda perde a força, mas não deixa de ser interessante conhecer um pouco mais sobre ela.

Um grande momento
O reencontro Egor e Seta no mundo invertido

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Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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