Crítica | Cinema

Yalda – Uma Noite de Perdão

Sem saída

(Yalda, FRA, BEL, ALE, SUI, LBN, IRA, LIB, 2019)
Nota  
  • Gênero: Drama
  • Direção: Massoud Bakhshi
  • Roteiro: Massoud Bakhshi
  • Elenco: Sadaf Asgari, Behnaz Jafari, Babak Karimi, Fereshteh Sadre Orafaiy, Forough Ghajabagli, Arman Darvish, Fereshteh Hosseini, Zakieh Behbahani, Ramona Shah, Faghiheh Soltani
  • Duração: 89 minutos

O cinema iraniano é quase um patrimônio mundial hoje. Difundido há 30 anos atrás por nomes como Abbas Kiarostami, Mohsen Makhmalbaf e Jafar Panahi, entre outros, chegou em patamar inalcançável de encontrar detratores. As gerações anteriores deram espaço a novas, igualmente interessadas em politizar suas ações, a poetizar suas realidades, a encontrar um denominador comum em área tão prolífica de olhares. Mas isso não impede esse cinema de encontrar também uma zona de conforto, como vista em ‘Yalda: Uma Noite de Perdão’, estreia dos cinemas que chega aqui com o prêmio de melhor filme internacional em Sundance, provando que o impacto de seu cinema também é indelével.

Esse é o segundo longa de ficção de Massoud Bakhshi, que ainda assim não consegue (como bom cineasta iraniano) se livrar das amarras do documental, já que se inspira em situações vividas em um programa nos mesmos moldes exibido no Irã. Aqui a linguagem é essencialmente ficcional, embora Bakhshi tente rechear sua obra de situações tidas como banais e corriqueiras em meio ao cerne principal da questão. Nem sempre essas inserções funcionam de maneira diferente que um arranhão incômodo que nada acrescenta ao projeto que não apenas interromper um discurso – como o velhinho que serve bebidas nos bastidores – mas o filme tenta inseri-las na linha prosaica que eles já traduzem com propriedade.

No mais, trata-se de uma obra padrão que o cinema do país vem legando com sucesso ao mundo, e vide o prêmio recebido, ainda não se esgotou entre todos os públicos. Essa estrutura, apesar de conhecida e já testada, continua funcionando, embora já apresente algum cansaço em seus desdobramentos, que tendem a não apresentar mais nada de novo ao que um espectador mais experimentado não identifique. Com sua dose de plots já programada, a ideia de que precisamos movimentar essa narrativa por caminhos inesperados, e sempre que possível instigar o público com uma nova camada, ‘Yalda’ vai por um caminho conhecido, mas que não mina nosso interesse.

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Yalda - A Noite do Perdão
Cortesia Sundance

Apresentado o conflito e suas ramificações, o roteiro desenvolve suas questões relacionados ao tradicional machismo local, que impele menores de idade a se casarem com homens mais velhos que seus pais a título de sobrevivência, ou como aqui, quase como um agradecimento. Isso não tira de uma mulher sua feminilidade, seus desejos de mulher que muitas vezes interrompem um processo para inserir outro, onde o amor não é mais importante do que a realização. Em uma sociedade repleta de nomenclaturas diferenciadas para dizer a mesma coisa, homens sempre estarão na dianteira das decisões e do predomínio da ação, ainda que estejam mortos.

O que Maryam fez não importa muito, porque existem questões de outras ordens que definiriam seu futuro, e todas as questões de todos os personagens envolvem poder. A máquina televisiva onde ela está inserida, a filha do seu falecido marido que pretende sair do país depois de resolver sua vida (e suas dívidas), a própria mãe, que agiu pelas costas dela em questões que ela ainda nem faz ideia, ninguém é a favor de Maryam – logo, só ela pode resolver as próprias questões, sem pensar muito no que o exterior vá decidir. Mas Maryam é uma personagem desenvolvida sem muita capacidade decisória que vá além do desespero e do choro convulsivo, por isso é difícil apoiar suas ações.

Como já dito, a estrutura básica de ‘Yalda’ é muito sedutora, temos à distância sempre a possibilidade de uma nova reviravolta, essas viradas não são óbvias, e o filme acaba colocando uma das protagonistas em lugar dúbio, que ela acaba observando o lugar alheio com maior proximidade, então cresce nosso interesse. Mas não se trata de uma obra maior do Irã, e sim de uma porta de entrada pra quem possivelmente viveu até hoje sem encontrar filmes de lá. Bakhshi então promove uma boa entrada para um universo que é muito mais rico e diverso.

Um grande momento
A moto

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Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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