Crítica | Streaming

Um Jantar entre Espiões

Sem calor

(All the Old Knives, EUA, 2022)
Nota  
  • Gênero: Suspense
  • Direção: Janus Metz
  • Roteiro: Olen Steinhauer
  • Elenco: Chris Pine, Thandiwe Newton, Laurence Fishburne, Jonathan Pryce, Orli Shuka, Jonjo O'Neill, David Dawson, Abdul Alshareef, Corey Johnson, Ahd
  • Duração: 101 minutos

É muito difícil se importar com um filme em que sua grande tragédia, seu ponto de interesse e investigação, já aconteceu antes mesmo do seu início. Se todo o plot está no passado e o presente se ocupa de uma investigação sobre algo já consumado, e a narrativa ainda trata de se mostrar refém desses eventos anteriores, a sensação é a de uma torcida por um jogo que já terminou. Um Jantar entre Espiões, estreia da Amazon Prime Video, se encaminha para esse lugar sem necessariamente dinamizar o que estamos assistindo em tempo corrente, e com isso acaba por oferecer um thriller morno para o espectador, daqueles onde a emoção já aconteceu e só nos resta esperar os eventos derradeiros.

Janus Metz é o cineasta dinamarquês por trás de Borg vs McEnroe, aqui em seu segundo longa de ficção. Tem algum vigor em sua função, mas o filme não consegue estimular, a despeito dos serviços prestados, por conta dessa escolha de ritmo. Baseado em um livro que foi adaptado pelo autor, a própria estrutura narrativa não se preocupa em evoluir sua trama, que se internaliza cada vez mais, se transformando em uma história romântica de amor perdido muito mais do que um suspense. O trabalho de direção tenta concatenar essas duas ideias, equilibrando suas vertentes e se dedicando a cada uma delas, mas o filme não consegue se mostrar eficaz em nos fazer se importar com qualquer um de seus polos.

Um Jantar entre Espiões
Stefania Rosini/Amazon Studios

Não há gás o suficiente que nos conecte a essa trama de espiões à moda antiga, porque sua atmosfera não parece muito bem definida. Há o desenrolar afetivo da produção, com o casal protagonista se mostrando absolutamente apaixonado, e há a profissão que os une – ambos são profissionais de inteligência americana trabalhando em Viena, e precisando investigar o resultado de uma tragédia no sequestro de um avião oito anos antes. As tramas não são paralelas, na verdade uma está inserida na outra, mas a opção é pelo intimismo, mesmo quando a tensão deveria estar falando mais forte. O resultado é uma produção que “queima lentamente”, abrindo espaço para aspectos dramáticos protagonizarem a trama.

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Como resultado dessas escolhas, temos uma trama de paixão fria e sufocada, e uma narrativa de suspense que não consegue angariar emoção. Ou seja, Um Jantar entre Espiões não se sai muito bem em nenhuma das suas duas tentativas de entreter, e o que temos à disposição é um projeto apagado, sem qualquer sinal de palpitação mais animada. Sua textura poderia aludir a um “film noir” clássico, mas as inserções da produção não conseguem criar um ambiente que fuja de uma certa apatia constante. E isso é grave se tratando de um filme que pretende mostrar a força motivadora de uma paixão, que corre à margem dos eventos sem convencer o espectador de sua motivação.

Um Jantar entre Espiões
Stefania Rosini/Amazon Studios

No centro da narrativa, Chris Pine e Thandiwe Newton poderiam ter uma química que nos fizesse entender sua efervescência e redenção. Os atores não são culpados da vagareza de seu desenvolvimento, mas também não parte de nenhum dos dois uma tentativa de explorar essa carga emotiva mais acentuada. Lá pelas tantas, o filme apresenta uma cena de sexo bastante expressiva entre os personagens e nem aí temos acesso a uma chave que nos apresente os sentimentos desses protagonistas em sua versão mais evidente. Isso seria crucial para que compremos as soluções de um roteiro que não se compromete com a paixão, olha a ironia.

Um Jantar entre Espiões, ao escolher adentrar o universo da espionagem para contar uma história de amor, não consegue demonstrar sua força em qualquer que seja a abordagem, incluindo uma montagem sem qualquer inspiração, que tira charme da produção. Com uma fotografia indescritível de Charlotte Bruus Christensen, que vai afunilando seu foco até restar somente os olhos (!!!) dos protagonistas sem qualquer motivo aparente, o filme poderia ser todo reconstruído e se transformar em uma grande opção de entretenimento, ágil e quente. O que se vê é um título que não consegue agradar nenhuma das fatias que experimenta.

Um grande momento
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Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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