Crítica | Cinema

Um Lugar Bem Longe Daqui

Foi pro brejo

(Where the Crawdads Sing, EUA, 2022)
Nota  
  • Gênero: Drama
  • Direção: Olivia Newman
  • Roteiro: Delia Owens, Lucy Alibar
  • Elenco: Daisy Edgar-Jones, Taylor John Smith, Harris Dickinson, David Strathairn, Michael Hyatt, Sterling Macer Jr., Logan Macrae, Bill Kelly, Ahna O'Reilly, Garret Dillahunt
  • Duração: 125 minutos

Quem for um pouco mais velho vai se lembrar das coleções de livros vendidos em bancas de jornal “Julia”, “Bianca” e “Sabrina”. Seguindo uma fórmula básica bem quadrada, com estilos de tramas definidos pelo nome da capa – “Sabrina” tinha as histórias mais melodramáticas, por exemplo – e por um preço muito acessível, essa literatura tornou-se muito popular e fez muita gente adquirir o hábito da leitura. Não é de se estranhar que formas genéricas tanto, mais ou menos elaboradas se multipliquem pelo mundo, indo para muito além das bancas e criando o novo best-seller da vez. 

Um dos títulos mais lidos no Brasil nos últimos anos, “Um Lugar Bem Longe Daqui” é um desses livros que dão no mesmo lugar, com personagens conhecidos e boa parte de sua trama reconhecível. Tem um lidar com o tempo diferente que se adequa a personagem e alguma tentativa de brincar com o gênero, mas nada que dure mais do que a vontade de falar do amor romântico. Não há ambientação eficiente, tentativa de criação de suspense, drama de tribunal ou mesmo um promissor melodrama pessoal-familiar que consiga se sobrepor à ultrapassada noção de que ninguém é feliz sozinho e só o amor romântico traz felicidade, isso na perspectiva mais heteronormativa possível. 

Um Lugar Bem Longe Daqui
Sony Pictures

O romance, escrito por Delia Owens, ganha agora uma versão cinematográfica e conta a história de Kya, uma jovem que foi abandonada pela família, cresceu sozinha e isolada no pântano. Lá aprendeu tudo sobre a biologia do local, se apaixonou, desiludiu, reencontrou e transformou a vida. Não posso dizer que não necessariamente nessa ordem, porque essa parte é estritamente padrão. O que existe de diferente, que vem do livro, é como isso se mistura com uma história de assassino e a uma sala de julgamento e à reconstituição dos fatos em longos e lentos flashbacks narrados pela protagonista.

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Ela é vivida por Daisy Edgar-Jones, do seriado Normal People e que já esteve em apuros em Fresh, que até faz um trabalho regular. Porém, por mais que se entenda que a opção da diretora Olivia Newman tenha sido imprir a solidão de Kya e seu ambiente natural em tela, algo que contrasta com o tom frenético que está habituada nos muitos episódios que dirigiu das séries franqueadas de F.B.I, Chicago Med e Chicago PD, talvez lhe falte traquejo para tanto. Embora consiga filmar bem o pântano, o resultado é modorrento, arrastado. Pouco interessam tanto a turbulenta – e equivocada – história de vida da mocinha e o drama forense.

Sobra ao público uma faísca de curiosidade pelo suspense principal da história, algo que se prolonga tempo demais e a certo ponto da trama a autora relativiza de maneira quase bizarra. Um Lugar Bem Longe Daqui tem uma atmosfera e interesses que poderiam levar longe, mas se perde no óbvio e na superficialidade de suas intenções. São escolhas que vêm da história original e da forma escolhida e que tornam tudo menos interessante. Aquelas pessoas não tem um vínculo real entre elas e esse distanciamento se reflete no público, numa falta de conexão evidente.

Um Lugar Bem Longe Daqui
Sony Pictures

Há em Um Lugar Bem Longe Daqui duas linhas narrativas que precisam desse envolvimento: a romântica e o suspense. Se não se crê naquilo que se vê, não há como prosseguir. Para além do equívoco moral que existe aqui, seja a história apaixonada com Tate ou a tentativa de algo mais sedutor com o boy lixo Chase são tão sintéticas quanto uma propaganda de algum produto qualquer. No outro polo, mesmo no formato padrão,o picotado e o entremeio com esses intervalos comerciais, não permitem um envolvimento real com o caso e suas muitas testemunhas. David Strathairn (Boa Noite e Boa Sorte) está ali perdido como o advogado de defesa, com falas que deveriam ser impactantes, mas não têm contexto. 

Acompanhar a jornada de Kya remete de imediato a essa coisa rápida e pouco elaborada que eram os livros de banca de jornal lá dos tempos idos e, que, sem qualquer juízo de valor, hoje se identificam em muito da literatura que faz sucesso entre o público jovem adulto. Porém, por incrível que pareça, há equívocos aqui que conseguem deixar qualquer exemplar de Bianca mais instigante.

Um grande momento
Vendo o pântano do alto

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Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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1 Comentário
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Renata
Renata
07/09/2022 21:57

Não concordo. Trata-se de uma bela adaptação do livro. A protagonista é cativante e consegue envolver o público ao longo da trama.

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