Crítica | Cinema

O Chef

O horror de um dia comum

(Boiling Point, GBR, 2021)
Nota  
  • Gênero: Drama, Suspense
  • Direção: Philip Barantini
  • Roteiro: Philip Barantini, James Cummings
  • Elenco: Stephen Graham, James Flemyng, Vinette Robinson, Alice Feetham, Ray Panthaki, Hannah Walters, Malachi Kirby, Izuka Hoyle, Lourdes Faberes, Lauryn Ajufo, Áine Rose Daly, Daniel Larkai,
  • Duração: 90 minutos

De tempos em tempos, o cinema é assolado por uma “grande novidade” inventada há 60 anos. Festim Diabólico, um dos muitos clássicos do mestre Alfred Hitchcock, talvez tenha sido o primeiro filme que assumia a ideia do ‘plano-sequência falso’, aquele onde a ilusão de nunca ser cortado transforma a narrativa em um desenrolar extenso, ininterrupto pela montagem. Desde a vitória de Birdman no Oscar, a moda voltou, com 1917 perpetuando a discussão. Ainda que Victoria, Arca Russa e Utøya: 22 de Julho tenham propagado esse debate para além do cinema de língua inglesa, os títulos que se projetaram com maior repercussão foram os produzidos em inglês. Estreia hoje nos cinema um dos mais bem sucedidos filmes britânicos do ano passado, O Chef, que reutiliza a brincadeira para nos deixar absolutamente atônitos. 

O que o diretor Philip Barantini consegue é digno de aplausos de múltiplas ordens. Ao reestruturar seu curta metragem de apenas dois anos antes, com o mesmo elenco vivendo os mesmos personagens, e ampliar o escopo da discussão e do sentido de clausura que se desdobra dali, o primeiro mérito é alcançado com louvor. Não é simples nem oportuno (na maioria das vezes) que essa transição seja feita; longa é longa, curta é curta, não deveriam se amalgamar. São formas de arte que cabem no exato lugar onde foram pensados, mas a tentação de espichar uma narrativa de sucesso é compreensível. Diferente do que já vimos dar errado, aqui o diretor consegue nos dar propósito para seu alargamento, semeando graus diferentes de uma ambição que não é sentida no ar. 

Outro acerto é conseguir dar verossimilhança ao projeto, além de dinamismo. Passado no tempo exato que o filme tem de duração e em apenas um espaço físico, O Chef jamais sugere artificialidade ou pedantismo, pelo contrário. Alguns espectadores com certeza irão contrariar-se, mas a forma natural com que a direção entra e sai de conflitos, sem esperar por uma situação resolutiva, é um dos prazeres de acompanhar o filme. Um dos seus charmes é costurar-se como uma grande conversa de ônibus que você irá captar somente até o momento em que você saltar dele, sem aprofundar detalhes ou finalizações; tudo isso ficará para trás. Há uma sagacidade no que é proposto nessas trocas narrativas, quando se equilibra o drama e a comédia, a tensão e a leveza, a expectativa que se concretiza e a que se frustrará, com certeza, do ponto de vista voyeurístico.

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Barantini entrega em seu filme as doses de tensão e insegurança típicas de um veterano repleto de experiência. Estamos dentro de um restaurante, muito renomado e muito cheio, em sua primeira hora e meia de funcionamento – o que deveria ser mais prosaico que isso? Pois o que é visto em cena é uma cartilha muito discreta sobre ritmo e inquietação social, em um microcosmos onde cabem muitas realidades, muitos desejos e algum declínio. Parece impossível de compreender, mas estamos diante de um grupo de pessoas em mais uma noite estressante como o próprio trabalho compreende, mas que chegou em um exato instante de desmoronamento, onde tudo parece tênue demais para ser evitado. 

Nesse quadro geral, perceber que a ideia do plano-sequência falso, de construção fluida e hipnótica, absorve essa angústia latente para regurgitar pânico e desespero no momento certo, é um acerto incontestável. Levando em consideração que, ao contrário da maioria dos filmes citados e o acréscimo de Carter aqui, absolutamente é imperceptível capturar os cortes, o que O Chef cria é como uma multiplataforma teatral, onde o espectador segue os atores a todo tempo. Em cada câmara encenada, um novo capítulo do horror diário da vida comum de pessoas ordinárias. Aqui a ilusão não somente é mais necessária quanto sua maquiagem impressiona mais, porque estamos diante de um quadro mutante de uma bomba prestes a explodir, observada por todos. Que nós sigamos vários personagens diferentes em momentos díspares, nos soa como uma escolha particular do espectador – enquanto seguimos pensando “mas o que será que está acontecendo ali do lado mesmo?”.

Um elenco assombroso fecha a experiência generalizada, e tudo só ainda mais intenso pela sua qualidade. Independente de estarem em grandes momentos ou em situações nada óbvias, o que contribui para sua beleza são sua disponibilidade para o jogo, sua aparente normalidade – inclusive física – e seu equilíbrio em cena. É uma grande orquestra regida por Stephen Graham (de O Irlandês), em desempenho inacreditável por conseguir abarcar tudo que foi descrito até aqui; trata-se do porta-voz da produção, e quem encarna todos os sentimentos vividos em sua duração. Barantini, além de talentoso, contribui em O Chef para essa direção de atores com uma dicção rara, de união e esforço dentro de cada quadro de aparência banal e manufatura labiríntica, por tudo que apresenta. 

Um grande momento

A discussão entre Carly e Beth

Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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