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Um Lugar Silencioso: Parte II

Silêncios que protegem

(A Quiet Place Part II, EUA, 2020)
Nota  
  • Gênero: Terror
  • Direção: John Krasinski
  • Roteiro: John Krasinski, Scott Beck, Bryan Woods
  • Elenco: mily Blunt, John Krasinski, Millicent Simmonds, Noah Jupe, Cillian Murphy, Djimon Hounsou, Okieriete Onaodowan
  • Duração: 97 minutos

John Krasinski não era necessariamente inexperiente ao dirigir o primeiro exemplar de Um Lugar Silencioso, mas a partir dele novas possibilidades autorais se abriram em sua carreira, que o tiraram do confortável caminho com o qual ele trocava a atuação pela direção. Um ator seguro que se transformava em um diretor seguro, até se revelar nas duas áreas muito mais propenso ao risco do que se imaginava até então. Em Um Lugar Silencioso: Parte II, suas escolhas vão além ao já apresentado no que concerne uma investigação autoral, tanto imagética quanto narrativa, e a isso o diretor Krasinski segue em progressão natural por toda a produção.

Desde a opção pela abertura, retornando no tempo para detalhar ainda mais a origem daquele universo, já percebemos um apreço pelo risco em todos os sentidos. Levando em conta que entre os protagonistas estão dois pré-adolescentes no primeiro, é uma fuga para o artifício filmá-los no “antes” quando claramente eles já estão muito “depois” — mas o profissional da crítica que levantar essa questão como um defeito, provavelmente não está muito interessado no que o cinema tem pra oferecer, dentro do gênero; o cinema onde se analisa linha temporal dentro de fantasia, ainda mais em detrimento a dois talentos tão evidentes quanto os de Noah Jupe e Millicent Simmonds.

Um Lugar Silencioso: Parte II
Jonny Cournoyer /Paramount Pictures

O universo criado por Krasinski não apenas se expande aqui, como redobra significados em tempos pandêmicos. Uma família isolada, sem contato com quaisquer outros seres vivos, precisa sobreviver a uma ameaça exterior à sua causa cujo potencial letal os mantém presos – isso é um estopim para observarmos o mundo em 2021, para além das alegorias cinematográficas possíveis que lidem com o extermínio em massa que estamos vivendo no Brasil. A falta de empatia e a falta de segurança matam igualmente, e o contrário a ambas é conseguido a partir do momento onde saímos de nossa zona de conforto habitual para pensar no próximo.

Se o trabalho do elenco continua impressionante, com Emily Blunt (premiada pelo primeiro) continuando a capitanear esse elenco e as participações de Cillian Murphy e Djimon Hounsou agregando valor ao conjunto, é a mão de Krasinski que habilita o novo filme a uma complexidade estética ainda superior, mais arrojada e ao mesmo tempo delicada. A sequência de abertura, longa e angustiante, é um trabalho metódico em como utilizar travellings e trilhos da maneira mais inventiva possível, situando a urgência da narrativa em mola propulsora para mover sua mecânica, criando um espetáculo que é ao mesmo tempo grandioso e mínimo.

Um Lugar Silencioso 2
Jonny Cournoyer /Paramount Pictures

Como já absorveu em absoluto todo seu manancial dramático, o autor agora também roteirista, cria algo raro de funcionar, que é uma continuação do minuto seguinte à última cena do anterior, de maneira tão orgânica que parecemos assistir a um grande longa de três horas, unindo as duas produções. O apuro conseguido pela trilha de Marco Beltrami, no entanto, representa um dos poucos senões do filme, que não consegue alcançar o silêncio composto em seu título. Veja bem: o trabalho de som do filme continua formidável, mas as belas composições estão em cenas por tempo demasiado, apostando na onipresença que retira a força do que o filme tem de mais emblemático, que é o seu sossego assustador.

A construção da mise-en-scene de Um Lugar Silencioso: Parte II, no entanto, eleva qualquer possível problema surgido pelo caminho. A potência de material gráfico, a montagem de Michael Shawver (de Pantera Negra e Creed) que urde um duo de acontecimentos apartados que, no clímax, se unem em polos diferentes de arranjo geográfico, e o amadurecimento de seu autor, que consegue uma vez condensar a construção de dois corredores dramáticos, um que lida com a introspecção e o outro com a exposição, conseguem manter o nível qualitativo da obra, convergindo suas ações a um só esforço na totalidade, de contar uma mesma história partida em duas, entre 2018 e agora.

Um grande momento
A abertura

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Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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