Crítica | Cinema

Velozes & Furiosos 9

A saga familiar de carros e explosões manda a verossimilhança literalmente pro espaço

(F9, EUA, 2021)
Nota  
  • Gênero: Ação
  • Direção: Justin Lin
  • Roteiro: Daniel Casey, Justin Lin, Alfredo Botello
  • Elenco: Vin Diesel, Michelle Rodriguez, Jordana Brewster, Tyrese Gibson, Ludacris, Nathalie Emmanuel, Charlize Theron, John Cena, Finn Cole, Sung Kang, Anna Sawai, Helen Mirren, Kurt Russell
  • Duração: 145 minutos

O que falar para convencimento dos fãs ou dos que torcem o nariz para perseguições, pancadas e explosões sobre Velozes & Furiosos que não caia no lugar comum? Que os envolvidos estão tentando ultrapassar as barreiras do absurdo e faturar bilhões? Que é ruim mas é bom? E tá errado?

A franquia, que no começo dos anos 2000 surge cult com Vin Diesel e Paul Walker naquela velha dinâmica do policial e do marginal que formam uma dupla, se expandiu a partir de uma base fiel de fãs e com o filme número 5 — e a entrada de The Rock como Hobbs — se tornou realmente um espetáculo de músculos, velocidade, explosões e porradaria de dimensões globais, competindo com Os Mercenarios de Stallone.

Como uma boa ou nem tão boa novela da Globo (ou da mexicana Televisa? O clássico A Usurpadora) Velozes & Furiosos traz muita intriga, ação, romance e conflitos familiares. E aí, se a ideia for aproveitar e sorver ao máximo o universo dos filmes e dos seus personagens, é bom esquecer que a verossimilhança existe no nosso mundo. E não é que as acrobacias, corridas e disputas com os carros sejam tão elaboradas e difíceis de engolir em termos das leis da física, mas, sim, que talvez o que seja menos convincente é a paixão entre Letty (Michelle Rodríguez) e Dom (Vin Diesel) — eles parecem gays que são obrigados a manter um relacionamento de fachada. Mas ao menos sobra química entre a belíssima Nathalie Emannuel e Tej/Roman, inclusive poderiam até ter o próprio spin off.

Velozes e Furiosos 9

Quem assume o volante do filme é Justin Lin, cineasta taiwanês que retorna à posição (já tinha assinado os filmes 4, 5 e 6) trazendo muitas referências À Desafio Tóquio, que assim como Hobbs & Shaw funciona como um spin-off da franquia, para trazer o devido frescor e um descanso das canastrices de Vin Diesel. Além do retorno de Sung Kang como Han, dado como morto no sexto filme, também retornam como uma versão mais maluca de suas contrapartes em Desafio Tóquio, Lucas Black (Sean) e Jason Tobin (Earl), que vão ter a missão de levar a franquia “para o infinito e além!”

Apoie o Cenas

E na realidade os personagens com backstory mais interessante são justamente os que deveriam ser apenas coadjuvantes, como o Han renascido e o ex-vilão Shaw (Jason Statham), que aparece numa cena de epílogo encontrando Han e acenando para um acerto de contas no próximo capítulo. Hobbs infelizmente não dá as caras. A lacuna “ator e ex-lutador ou atleta” e o lugar na mesa de confraternização dos Toretto é preenchida por John Cena, que é basicamente o Schwarzenegger da Geração Z e, no filme, é Jakob Toretto, o irmão caçula que cresceu muito, se tornou — ora vejam só — um espião, e quer reorganizar a ordem mundial. Aí haja flashback pra mostrar Dom e Jakob jovens, a suposta sabotagem que o mais novo fez no carro do pai, que acabou morrendo na pista de corrida, o banimento dele pelo irmão mais velho e nada de novo sob o sol….

Velozes e Furiosos 9

Inclusive, Charlize Theron retorna para ganhar um troco com sua Cipher, que fica boa parte do filme trancada numa jaula de vidro a la Magneto nos filmes dos X-Men, se alia a Jakob e depois o trai, não sem antes destilar ironia e frases de efeito. A passagem em que ela confronta outro de seus aliados, o filho de um ditador do leste europeu (olha o clichê bem típico de 007), que se diz um herói como Luke Skywalker ou como Han Solo, e ela rebate argumentando que na verdade ele é Yoda – mas não por esse ser um jedi poderoso mas sim por ser um marionete com a mão de alguém enfiada no rabo – é um diálogo digno de aplausos entusiasmados.

Entusiasmo mesmo se sente o espectador quando Dame Hellen Mirren entra em cena com sua Queenie, a mãe de Deckard e Hattie (Vanessa Kirby) e gatuna profissional, para pilotar e interagir um pouco com Dom. Também já merece seu próprio spin off, caso de mandar abaixo-assinado para a Universal solicitando um filme de roubo e espionagem com ela, seus filhos e outros personagens (mas os legais) de Velozes & Furiosos. A tão aguardada volta da Mulher-Maravilha Gal Gadot ao universo da franqui não se concretiza muito além de um flashback de Han. Quem sabe sua Gisele não ressurge num próximo filme?

A não tão aguardada volta de Mia Toretto (Jordana Brewster) acontece, mas a atriz brasileira carece realmente de mais dedicação na função e tampouco convence nas cenas de ação. À personagem caberia contemporizar e falar frases motivadoras para os dois irmãos brigados, porém isso tampouco tem tempo de existir entre tanta correria.

Velozes e Furiosos 9

Estilisticamente, Velozes & Furiosos 9 segue a composição visual dos filmes anteriores mas, apesar da breguice em alguns takes e enquadramentos demorados nos rostos de seus protagonistas — o que reforça a canastrice e a cara feiosa de Vin Diesel, especialmente — não atrapalha tanto o entendimento quanto o episódio anterior, esse sim uma verdadeira lambança entre espionagem e vingança familiar.

Perdendo um pouco da pegada mais porn soft com mulheres seminuas, carros e sangue — tem uma breve cena em Londres que faz alusão a essa fase da franquia, tratada com a devida nostalgia por Lin — Velozes & Furiosos vem se tornando cada vez mais família, com direito a cenas fofas com o pequeno Brian ou as idiotices de Tej (Ludacris) e Roman (Tyrese Gibson) e logo descola uma classificação PG-13. Fato é que esse nono filme mostra que ainda tem mais combustível no tanque para mais perseguições debaixo da água, no espaço e que mais for possível inventar — se não com a elegância de Missão Impossível, que sob o comando de Chris McQuarrie rejuvenesceu –, com a trilha sonora permeada por estrelas latinas como Anitta e muita pieguice nas histórias rasas da “gangue familiar”, caem no gosto dos fãs do cinema de ação.

Um grande momento
Queenie, sempre ela.

Curte as críticas do Cenas? Apoie o site!

Lorenna Montenegro

Lorenna Montenegro é crítica de cinema, roteirista, jornalista cultural e produtora de conteúdo. É uma Elvira, o Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema e membro da Associação de Críticos de Cinema do Pará (ACCPA). Cursou Produção Audiovisual e ministra oficinas e cursos sobre crítica, história e estética do cinema.
Botão Voltar ao topo