(Vice, EUA, 2018)
Comédia
Direção: Adam McKay
Elenco: Christian Bale, Amy Adams, Steve Carell, Sam Rockwell, Alison Pill, Eddie Marsan, LisaGay Hamilton, Jesse Plemons, Bill Camp, Tyler Perry, Alfred Molina
Roteiro: Adam McKay
Duração: 132 min.
Nota: 6 ★★★★★★☆☆☆☆

“Nós somos, por uma questão empírica e história inegável, a maior força para o bem que o mundo já conheceu.”
Dick Cheney

Enquanto sobem os créditos do filme que não só nos lembra do vice de George W. Bush, mas aumenta nossa aversão a sua pessoa, um questionamento pode vir à cabeça: quantos monstros o ufanismo foi capaz de criar? Embora esteja mais interessado em destacar a figura, sua legitimação e o resultado ainda ecoante de seus atos, Vice, dirigido e roteirizado por Adam McKay, desperta questionamentos que são abrangentes quanto ao nascimento e a manutenção dessas figuras, não só nos Estados Unidos, mas do mundo. Mais do que isso, expõe uma espécie de maldade que embora pareça gratuita é alimentada pela configuração social e, principalmente, ignorância pessoal.

A jornada de Dick Cheney é resgatada desde seus primeiros anos na vida adulta. Da expulsão da faculdade até a chegada à Casa Branca, começando como auxiliar até chegar ao cargo de vice-presidente, conhecemos a sua escalada em busca do poder, passando por cima de quem precisasse passar e manipulando quem permitisse. A história toda é narrada por um veterano de guerra americano qualquer que, de forma inesperada e inusitada, acabou conhecendo Cheney intimamente.

A ganância do vice é algo que intriga McKay há muitos anos. Enquanto roteirista do programa humorístico Saturday Night Live, o diretor voltou várias vezes ao personagem e à influência que tinha sobre o ex-presidente W. Bush, buscando, através do humor, decifrá-lo. No longa-metragem, ainda há humor, ainda mais ácido, mas falta constância à composição.

Logo no começo, a tentativa de construir Cheney através da influência de pessoas próximas, principalmente a da esposa, é bastante comprometedora. Porém, pela história que resolve contar, o filme sobrevive a isso. Esse voltar ao “demônio”, como foi chamado por Christian Bale ao ser premiado com o Globo de Ouro pelo papel, ao mesmo tempo em ele está recluso escrevendo suas memórias, costurando as histórias que ele tenta esconder e explicitando a impressão geral deixada no mundo, já tem, de saída, sua validade. O fato de o fazer diante da onda de extrema-direita que varre o mundo e não só levou o atual presidente dos Estados Unidos ao cargo, como chega em vários países do mundo, incluindo o Brasil, incrementa isso.

Mesmo que tenha seus méritos, não há muito equilíbrio naquilo que se vê. O diretor tem muitas informações a dar e parece ansioso em colocar todas elas nas pouco mais de duas horas do filme. O conteúdo demasiado acaba sobrando na opção pela alternância na linha do tempo, assim como muitos dos personagens não conseguem ter qualquer traço de aprofundamento.

Homem de palavras e habilidoso na condução de longos diálogos, McKay ainda exagera nas referências visuais. Há cartelas, vários personagens, muitos falatórios em reuniões a portas fechadas, narração em off e imagens de todo o tipo para ilustrar aquilo que se fala ou aquilo que se supõe. Ou seja, há sempre informação demais para pouco espaço.

Em seus momentos mais inventivos, o longa acerta, como na ácida mas inspirada cena do maître vivido por Alfred Molina apresentando o cardápio ou na inserção de eventos externos como a pesquisa com cidadãos sobre a Inferno no Deserto. Porém, acaba tropeçando em tentativas de conexão frustradas, como no pronunciamento de Bush para comunicar o começo da guerra, ou em todo o melodrama das passagens familiares no terço final do filme.

Ainda assim, há qualidades inegáveis na montagem frenética de Hank Corwin, que já trabalhou com McKay em A Grande Aposta e consegue, dentro das possibilidades, dar um sentido a toda a profusão de informações do diretor. O mesmo pode ser dito da atuação de Christian Bale. Em mais uma de suas alterações corporais extremas, a última segundo ele, o ator se entrega totalmente ao papel e está muito bem acompanhado por Amy Adams, que vive sua esposa Lynne.

Ao fim e ao cabo, mesmo com seus problemas, Vice é um filme interessante por se dispor a perpetuar algo que não pode ser esquecido e por sua tentativa de deixar claro que todo posicionamento extremo nasce da manipulação e não deixa nada de bom para trás. Mais, coloca o dedo na ferida ao quebrar a quarta parede: “vocês me escolherem e eu fiz o que vocês pediram”.

Quanto à tentativa de descobrir de onde saiu tanta maldade e ganância, ela se mantém como nos tempos de SNL, sem uma explicação.

Um Grande Momento:
Guantanamo.

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