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Você Nem Imagina

(The Half of It, EUA, 2020)
Drama
Direção: Alice Wu
Elenco: Leah Lewis, Enrique Murciano, Becky Ann Baker, Alexxis Lemire, Daniel Diemer, Catherine Curtin, Collin Chou, Wolfgang Novogratz, Haley Murphy
Roteiro: Francesco Amato, Massimo Gaudioso, Davide Lantieri, Alessio Vicenzotto
Duração: 104 min.
Nota: 7 ★★★★★★★☆☆☆
Onde ver: Netflix

Há um jeito fácil, quase trapaceiro, de fazer qualquer um parar tudo o que está fazendo e prestar atenção em uma comédia romântica. É voltar, ou estimular essa volta, às grandes teorias/histórias de amor, a autores clássicos e filósofos. Afinal de contas, aqueles que influenciaram tantas outras histórias românticas e o próprio romantismo podem até ser questionados, mas não perdem a sua força. E é em um dos mais antigos dos textos que Você Nem Imagina vai buscar a sua abertura. Com adaptações, traz, direto de “O Banquete de Platão”, em uma animação fofa em stop-motion, o mito da alma gêmea.

Além de antecipar no prólogo sua história, com identificações que só se concretizarão no decorrer da trama, Alice Wu constrói seu caminho buscando a originalidade, mas nunca abandonando o passado do gênero, mais do que isso, pontua sua narrativa com ele. São citações em cartelas e vários trechos de filme como Casablanca, Asas do Desejo, Jejum do Amor que trazem/dão o tom fantasioso necessário ao amor romântico, como um todo, e à esta descoberta de paixões e amizade, particularmente.

Leah Lewis e Alexxis Lemire em Você Nem Imagina (The Half of It, de 2020)

Como em “Cyrano de Bergerac”, Você Nem Imagina conta a história de uma inteligente adolescente que ajuda um dos colegas a conquistar uma garota escrevendo cartas para ela fingindo ser ele. Há atualização, claro, com trocas de mensagens (em aplicativos ou muros) intercaladas à narrativa epistolar. Wu, também responsável pelo roteiro, entrega ao espectador os fatos em detalhes, mas não deixa que eles interfiram na dinâmica que se estabelece entre Ellie Chou, Aster e Paul. A informação privilegiada, porém, vai se confundindo a medida que o interesse da diretora não é apenas em uma das relações.

Pelo contrário, embora ela manipule, com o formato e tantas dicas ou citações, e faça com que as atenções se voltem para o que há de romance em tela, a trama central, aquela que ela quer desenvolve, é a da amizade que surge entre Ellie e Paul. Em como eles se modificam e se encontram um no outro, em como passam por coisas e decidem entendê-las porque gostam de estar juntos e fazem falta um ao outro.

Leah Lewis, Daniel Diemer e Alexxis Lemire em Você Nem Imagina (The Half of It, de 2020)

Isso não acontece sem ser avisado, mas está em um lugar para onde preferimos não olhar, uma vez que entendemos que todas aquelas referências não deveriam ser usadas para ilustrar histórias “coadjuvantes”. Essa quebra proposta por Wu é ousada e muito interessante, além de funcionar bem. Entre as descobertas e a vontade de pertencer comuns à juventude, há uma outra realidade, muito mais resistente e persistente. Vidas se constróem, se experimentam, e o que vivem é importante para cada um deles, mas é no voltar para o seguro e o duradouro, para aquele lugar onde não estão os julgamentos e as cobranças, que está o seu ponto alto.

Você Nem Imagina brinca com as expectativas de quem o assiste, que pode achar que o filme não deu atenção ao que era mais importante. Como diria o pai de Chou destacando que essa é a melhor parte de Casablanca (eis aí uma ótima referência de quebra): “esse é o começo de uma grande amizade”. E isso ser construído, em uma possível comédia romântica, por meio de jogos de ping pong, tacos de salsicha e replicação de cenas “ridículas” é de uma sensibilidade sem tamanho.

Um Grande Momento:
Por que você gosta dela?

Ver na Netflix

Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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