[box](Vox Lux, EUA, 2018)
Drama
Direção: Brady Corbet
Elenco: Jude Law, Natalie Portman, Willem Dafoe, Christopher Abbott, Raffey Cassidy, Jennifer Ehle, Stacy Martin, Maria Dizzia, Natasha Romanova
Roteiro: Brady Corbet
Duração: 110min.
Nota: 8 ★★★★★★★★☆☆[/box]

Brady Corbet repete em Vox Lux o procedimento de A Infância de um Líder (2015) ao ficcionalizar dentro de marcos históricos concretos. Em seu primeiro longa-metragem, o fim da Primeira Guerra Mundial (1914-1918) e as reuniões diplomáticas que dariam origem ao Tratado de Versalhes (1919) servem de cenário para a educação de uma criança de comportamento arredio, por vezes cruel. Nesse novo, um episódio inspirado no massacre de Columbine (1999) é o ponto de partida inusitado da trajetória de uma artista pop, posteriormente marcada também por dois outros atentados terroristas: o de 11 de setembro de 2001 e um semelhante aos muitos ataques recentes do Estado Islâmico.

Ambos os filmes buscam um contato direto com o mal absoluto. Observam-no nascer em meios talvez não esperados: o contexto pós-Primeira Guerra, de negociação da paz entre nações que experimentaram um longo e destrutivo conflito; a homenagem comunitária às vítimas de um massacre. No entanto, se em A Infância de um Líder Corbet permanece num terreno relativamente seguro, por ser corriqueiro considerar as injustiças de Versalhes um combustível decisivo para a ascensão dos fascismos, em Vox Lux ele arrisca analogias que poderiam ser consideradas inadequadas.

Trata-se de um filme que, no limite, compara o terrorismo contemporâneo ao funcionamento da indústria cultural. Numa cena, a protagonista Celeste (Natalie Portman) chega a verbalizar essa comparação, que, na verdade, atravessa toda a narrativa. Como o estudante assassino do início aproveita um momento de absoluta fragilidade de seus colegas, num ambiente aparentemente seguro (a sala de aula), para atacá-los; Celeste se beneficia do desamparo emocional de uma comunidade traumatizada para impulsionar pretensões artísticas – e, claro, o empresário musical que passa a representá-la (Jude Law) desconsidera qualquer exigência ética decorrente dessa situação. Corbet, aliás, parece estar sempre se referindo à indústria cultural em Vox Lux como também “fascista” – espécie de prolongamento do fenômeno histórico mapeado em A Infância de um Líder –, sobretudo pela homogeneização e alienação que produz.

Mas a analogia com o terrorismo, central no filme, é concretizada especialmente na lógica espetacular que move tanto uma estrela como Celeste quanto os perpetradores de atentados brutais. Se Columbine foi, em alguma medida (superficial, ainda que hiperexplorada pela mídia à época), influenciado por produtos da cultura pop (games violentos, o filme Assassinos por Natureza etc.), os ataques ao World Trade Center contaram com todo um timing publicitário: o choque do primeiro avião contra uma das torres capturou a atenção midiática para o do segundo, transmitido ao vivo em TVs de todo o mundo. Já os vídeos de execuções de prisioneiros do Estado Islâmico, em curso desde meados da década de 2010, são caracterizados por grande preocupação com a qualidade técnica. Algo que, na visão de Corbet, não estaria muito distante do constante controle comercial sobre cada palavra ou gesto da protagonista.

Novamente, analogias arriscadas, mas que em Vox Lux soam certeiras especialmente pelo tom exagerado adotado pelo diretor. Corbet permanece do início ao fim comprometido com um olhar over para o mundo, associado a um incômodo instalado pelo uso de determinados elementos da linguagem cinematográfica com o objetivo de produzir estranhamento: trilha sonora incidental de acordes intensos e dissonantes, combinada a canções pop compostas por Sia, divisão da história em capítulos que remetem a uma narrativa bíblica (apocalíptica, talvez), narrador onisciente (Willem Dafoe), espécie de voz de Deus (ou seria do Diabo, considerando os temas tratados no filme?) que comenta, impassível, cada etapa da vida da protagonista, das mais banais às mais graves (lembra um pouco o equivalente de Barry Lyndon).

Quem melhor entende essas escolhas é Portman, brilhante como a versão adulta de Celeste (na juventude interpretada por Raffey Cassidy). Surtada nos momentos mais extremos da artista, capaz de capturar a decadência subjacente a uma carreira aparentemente ainda em alta, é como se ela aqui revisitasse a Nina Sayers de Cisne Negro, despindo-a de toda inocência na relação com a arte, reconfigurando-a numa performer cínica, patética, encarnação da dimensão espetacular do mesmo mal diagnosticado em A Infância de um Líder. Não à toa, ambos os filmes terminam com seus protagonistas, um líder fascista e uma cantora pop, se apresentando (e sendo ovacionados) por seus respectivos públicos.

Um Grande Momento:
A entrevista coletiva de Celeste.

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