Crítica | Streaming

Wendy

(Wendy, EUA, 2020)

  • Gênero: Fantasia
  • Direção: Benh Zeitlin
  • Roteiro: Benh Zeitlin, Eliza Zeitlin
  • Elenco: Devin France, Yashua Mack, Gage Naquin, Gavin Naquin, Ahmad Cage, Krzysztof Meyn, Romyri Ross, Lowell Landes, Kevin Pugh, Shay Walker, Pam Harper, Allison Campbell
  • Duração: 111 minutos
  • Nota:

A mitologia criada a partir da obra “Peter Pan” de J. M. Barrie é tão forte que praticamente há 70 anos sua história não sai das telas de cinema, retornando de tempos em tempos em alguma repaginação. Até Steven Spielberg assumiu sua porção na fábula do menino que não queria crescer, se vendo como o alter ego de Pan e vestindo então a persona que insistiam em lhe atribuir em 1991, com Hook, e o menino que não queria crescer continua provando seu encanto e sua atualidade em pleno 2020 – mesmo que nas últimas duas décadas tenha sido impossível ficar longe dele, beirando o insuportável.

Wendy não é a versão definitiva da obra, como poderíamos chamar uma roupagem atual do célebre texto que já ultrapassou um século de vida. Mas quem se não o diretor responsável pelo intenso Indomável Sonhadora poderia recriar pela enésima vez esse clássico com alguma autenticidade? Benh Zeitlin teve quatro surpreendentes indicações ao Oscar com sua estreia no cinema ao contar a sensível história de Hushpuppy, a menina que igualmente não queria crescer embora a vida a impusesse isso de maneira inexorável. É com a mesma energia que o diretor coloca na tela a nova versão dessa história, ao conjurar realidade e fantasia de maneira tão assertiva.

Wendy (2020)

Ao categorizar sua visão com uma dose de poesia imagética que aproxima seu longa muitas vezes do “cinema de fluxo” que marca o trabalho de pessoas tão diferentes quanto Naomi Kawase e Terrence Malick, Zeitlin encontra uma maneira de reencenar algo tão inúmeras vezes visto e injetar interesse genuíno em seu material. Se a narrativa é completada antecipadamente pela memória do espectador que acessou tantas vezes aqueles personagens, a atmosfera que o diretor insere e os desdobramentos que ele promove a um conjunto de eventos tão relembrado pelo cinema é de alguma forma sedutor, e não desprovido da autoralidade já vista antes no próprio.

Há um esforço em deixar aquelas presenças muito mais humanas do que fantásticas, e o filme investe em comentar aqui e ali aspectos delicados da sociedade. Partindo de um cenário absolutamente espontâneo, Zeitlin conduz em contexto realista o entorno daquele miolo extraordinário – a protagonista Wendy e sua família são irremediavelmente pobres, o típico americano de baixa renda sulista, e mesmo só tendo acesso a rápidas pinceladas iniiciais (e finais) a esse estrato, mais uma vez o jovem diretor se exemplifica do palpável para ampliar uma fabulação onde também ela é fruto de camadas sociais marcantes e que se comunicam com o espectador na métrica da empatia.

Wendy (2020)

Com um trabalho fotográfico a cargo do norueguês Sturla Brandth Grovlen (de Shirley, Victoria e A Ovelha Negra), o filme utiliza luzes e sensorialidade ultra realistas para realçar o extraordinário, que nasce muitas vezes em forma de delírio, mas que também se arvora pelo mais concreto para atualizar Barrie nos dias atuais e comentar a vida miserável de desgarrados sociais em lados extremos, a mais tenra infância e o estertor da velhice. Uma das mais fortes falas do filme (“percebi que tinha envelhecido quando passaram a não olhar mais pra mim”) reverbera em um lugar onde o autor não tinha se debruçado em sua obra original, mas que Zeitlin aproxima de seus intentos ao colocar no mesmo patamar de abandono as duas extremidades da vida.

Um comentário de raça vai além de atualização indevida ou carona em uma possível contemporaneidade, no entanto. O Peter de Zeitlin é negro, e as curvas com a qual seu roteiro desenvolve o abandono social e emocional pelo qual crianças negras passam, e sua metaforização a respeito da capacidade de sonhar para fugir da opressão que em seu filme também é racial, coloca imediatamente em Wendy um foco plus de autêntica honestidade e alguma saudável nova orientação para aquele grupo de personagens e ideias. Aliado à presença forte e carismática de Yashua Mack como o garoto que sabia voar, ao surgimento de um dos vilões mais famosos do cinema e a uma personalidade que o diretor sabe exercer, o longa pode não causar uma sensação tão positiva de originalidade, mas a potência com a qual encena sua versão é suficientemente abrangente para reverberar mais que as cansativas últimas adaptações desse clássico.

Um grande momento
“Crescer é uma grande aventura.”

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Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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