- Gênero: Romance
- Direção: Emerald Fennell
- Roteiro: Emerald Fennell
- Elenco: Margot Robbie, Jacob Elordi, Hong Chau, Shazad Latif, Alison Oliver, Martin Clunes, Ewan MItchell, Charlotte Mellington, Owen Cooper
- Duração: 130 minutos
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Hollywood ainda tem salvação? Quantas vezes mais assistiremos novas versões de Mogli, Peter Pan, Pinóquio, Frankenstein, Sherlock Holmes, Halloween (e mais toda uma galeria de criaturas do terror, à parte)…? Emerald Fennell surgiu há 5 anos com um pequeno filme que deu o que falar de todas as formas; durante a pandemia, Bela Vingança conseguiu o sucesso possível, e indicações ao Oscar a granel, vencendo em melhor roteiro. Original. Bom, essa foi a última vez que essa palavra aproximou-se da cineasta. Após aventurar-se por uma pouquíssimo disfarçada releitura de Patricia Highsmith (Saltburn, que em resumo, é uma versão de O Talentoso Ripley que não quis pagar seus direitos autorais) sem alcançar a mesma amplitude, ela declara seu amor por Emily Brontë. Fica a pergunta: precisávamos de um novo O Morro dos Ventos Uivantes?
A resposta, obviamente, é não. Mas já que a Warner decidiu bancar a brincadeira extravagante da autora, estreia essa semana nos cinemas uma versão pouco doce do livro; na verdade, temos aqui, além da exuberância estética comum à Fennell, uma dose de erotismo que já estava em seu longa anterior. O resultado é um filme que, em suas duas características principais, ficou no ‘segundo lugar’ para ela mesma: o longa protagonizado por Carey Mulligan era mais feérico, e o filme que ela deu de presente a Barry Keoghan era mais erótico. Ainda assim, O Morro dos Ventos Uivantes é suficientemente uma coisa e também a outra para nos conectar ao espetáculo orquestrado por ela, ainda que grande parte do que poderíamos chamar de liberdades tenha sido tomada – direito dela, diga-se.
Um respeito pelo qual conseguimos nutrir admiração é sua tentativa de abordar essa história a partir de um caráter épico. Tentar encapsular décadas de história é arriscada, porque raramente se compreende a essência de algo tendo em vista um período que se estenda por 30 anos ou mais. Mas ela banca seu querer em uma produção ao mesmo tempo positivamente estridente e delicada, e a culpa talvez recaia sobre cada um dos seus atores, que nos carrega para dentro dos muitos elementos emocionais. Não estou falando exclusivamente de Margot Robbie e Jacob Elordi, mas de cada um que passa pelo quadro de Fennell; todos carregam a bandeira de manter intacta uma atmosfera de delírio correndo em paralelo com algo de austero no que são os sentimentos partilhados em cena e suas forças motoras de proporção.
Dentro desse escopo do melodrama extraído do exagero (que compõe uma ideia presente na obra original), Fennell não deixa de demonstrar suas características de esteta, examinando a narrativa dentro de um escopo emocional que se expande até os planos. Ao lado da luz de Linus Sandgren (fotógrafo vencedor do Oscar por La La Land), a diretora prepara imagens que ora remetem a clássicos de John Ford, ora sugerem a artificialidade de cores estouradas obtidas por Douglas Sirk. Sem dúvida isso confere a seu O Morro dos Ventos Uivantes uma personalidade única, porque trafega entre contextualizações dedicadas ao feminino e ao masculino. O resultado é uma festa para os olhos, que não é feito de maneira vazia; o propósito é traduzir essa narrativa de uma maneira comercial a dois públicos distintos.
Não existe um problema a priori no fato de Fennell parecer responder a demandas de mercado que atendem múltiplos públicos. O fenômeno dos ‘booktubers’, que são uma horda de influenciadores literários (a maioria jovens), têm mesmo redescoberto clássicos da literatura mundial; a ânsia por alocar em uma obra de audiovisual elementos de textura erótica; o tratamento ultrapop que ela mesma organizou em sua filmografia até agora. O Morro dos Ventos Uivantes é um amálgama das três possibilidades, que acerta ao equilibrar essas três vertentes, mas isso não torna o produto menos superficial, por assim dizer. Sim, é uma produção em larga escala que assistimos sem maiores aborrecimentos, mas não há nem mesmo a busca por algo que eleve suas pretensões. Por trás da opulência de sua realização, a saga de amor que atravessa décadas perdeu muitas características originais até se transformar em mais uma história de amor.
O revestimento em torno de O Morro dos Ventos Uivantes é de primeira: do elenco mais que capacitado (além dos protagonistas, precisamos citar Hong Chau, Shazad Latif e Alison Oliver), até as prioridades de Fennell como criadora imagética, os méritos existem. Mas também estão em jogo mudanças narrativas significativas que retiram da obra conceitos originais, independente da condução e das escolhas. Resta uma produção divertida, de ritmo inegável, que entretém sem restrições, mas não justificam uma nova produção, que não pelos motivos escusos já acessados. Não importa muito se a obra de Brontë era (ou não) uma obsessão da diretora em sua carreira, porque a aparência é a de um blockbuster que converse com as necessidades da contemporaneidade.
Um grande momento
Heathcliffe vai embora


