Crítica | Festival

A Banca

Modesta história de amor

(Kapana, NAM, 2020)
Nota  
  • Gênero: Drama
  • Direção: Philippe Talavera
  • Roteiro: Senga Brockerhoff, Mikiros Garoes
  • Elenco: Felicity Celento, Elize de Wee, Dawie Engelbrecht, Mikiros Garoes, Foreversun Haiduwah, Albertina Hainane, Simon Hanga, Jeremiah Jeremiah, Lukas Paulus, Adriano Visagie
  • Duração: 60 minutos

O que um filme como A Banca busca, em matéria de mercado internacional, que no próprio país já não cause reverberação suficiente para ser histórico? Em nenhum outro lugar do mundo o filme de Philippe Talavera será mais importante que na própria Namíbia, país de tradição ainda repressora em relação aos direitos LGBTQIA+, que ainda condena com prisão flagrantes de atos homossexuais (ainda chamados por lá de sodomia), e que finalmente tem sua primeira produção do gênero sendo feita, exatamente esse longa em cartaz no Festival For Rainbow. Logo, é comemorativo principalmente pela própria população local que esse filme sequer exista.

Que ele tenha cruzados os mares e traga a outra culturas uma linguagem ainda incipiente, de teor inegavelmente cafona em uma forma quase amadora de realização, são problemas que verdadeiramente existem mas que ganham outros contornos ao termos acesso ao carisma que exala do seu resultado, sem qualquer paternalismo em relação às suas deficiências. Não é de forma alguma uma maneira agridoce de observar o quanto de Cinema o filme “agride”, mas de se envolver com uma obra verdadeiramente pura em sua linguagem, por maiores que sejam os pecados cometidos pelo filme em diversos aspectos.

Tudo é imensamente simples em A Banca: um cara de situação econômica favorável é arrebatado de paixão por um cara que conheceu em um bar, que durante o dia trabalha em uma espécie de feira livre vendendo “kapana” – o título original ao longa, que vem a ser uma espécie de churrasco ao ar livre. Acontece que o rapaz humilde, Simeon, não é homossexual assumido e nem pretende ser, enquanto George tem uma vida aberta, embora em tese tivesse muito mais a perder, vivendo no país onde vive. Desse encontro nascerá uma série de novos questionamentos, porque George também tem segredos a guardar, que irão desequilibrar uma relação que sempre teve tudo para dar muito errado.

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Partindo de uma premissa tão óbvia inclusive nos plots que organiza, o roteiro de Senga Brockerhoff e Mikiros Garoes só incomoda de verdade (lógico que essas questões, como em toda crítica, são altamente subjetivas, mas aqui concretizar essa subjetividade é muito mais necessária) quando o filme parece propagandear o uso de um medicamento – que não citarei qual é para não contribuir com spoilers – e o faz de uma maneira tão evidente e didática que, nesse momento específico, o filme se assemelha a um institucional médico. No restante do filme, suas inserções pesadas no didatismo incomodam de acordo com o que se espera de uma produção com as características já descritas.

Tecnicamente, há ainda menos o que analisar em A Banca. Obra que não tem medo de apresentar suas credenciais, o filme é o que é – muitas vezes temos a impressão de que escorregamos em uma novela mexicana, mas também essa seara rapidamente é assimilada e compreendida em suas peculiaridades. Trata-se de uma produção bastante modesta, que provavelmente tem consciência de suas ausências enquanto o que o senso comum chamaria de “bom cinema”. Talavera, no entanto, tem a seu favor a sinceridade com que tudo é demonstrado; suas habilidades como autor não prejudicam muito mais do que o esperado. Cabe ao espectador comprar (ou não) o que é vendido com humildade aqui.

Atravessando essa barreira, que entendo ser complexa de transpor, o que sobressai é o tamanho do coração de A Banca, um filme desconjuntado que aceita sua própria condição por não ter muito mais a oferecer que sua honestidade. Em apenas 1 h de duração, o filme pode se assemelhar a um especial de televisão muito inclusivo vindo de um país com pouca tradição cinematográfica. E se na Namíbia as pessoas ainda são sentenciadas por amar umas as outras, não atrapalha para o progresso que um filme como esse exista e os conscientize do atraso.

Um grande momento
O papo com o primo

O crítico viajou para o 15º For Rainbow – Festival de Cinema e Cultura de Diversidade Sexual e de Gênero a convite do evento

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Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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