Crítica | Cinema

A Brigada da Chefe

Que correria!

(La Brigade, FRA, 2022)
Nota  
  • Gênero: Drama
  • Direção: Louis-Julien Petit
  • Roteiro: Louis-Julien Petit, Liza Benguigui, Sophie Bensadoun
  • Elenco: Audrey Lamy, François Cluzet, Chantal Neuwirth, Fatou Kaba, Yannick Kalombo, Amadou Bah, Mamadou Koita, Alpha Barry
  • Duração: 92 minutos

O cinema não vai parar de produzir essa narrativa, provavelmente nunca. Uma turma desvalida, que precisa de algum tipo de ajuda (muitas vezes mais emocional que corretiva), encontra enfim em uma figura tão corajosa quanto eles, um ponto de equilíbrio que faça realçar seus talentos em potencial; todos revelam o melhor de si nesse encontro. De Ao Mestre, Com Carinho pra cá, esse roteiro foi sendo pouco modificado ao longo dos tempos, e é muito estranho que se dê pouco valor a esse clássico estrelado por Sidney Poitier, sendo que a influência dele é permanente e longeva. Chegamos a esse A Brigada da Chefe (que a tradução local não grafou corretamente; a protagonista é uma chef de cozinha, logo sem esse E final), uma variação sobre o mesmo tema. 

O diretor Louis-Julien Petit já estava envolvido com a imigração em seu longa anterior, As Invisíveis, e aqui eleva seu tema mais uma vez à condição de protagonista informal de um filme. Se no centro da narrativa temos a chef Cathy Marie enfrentando seu entorno para provar suas habilidades, na margem direta está o grupo de adolescentes com a qual ela começa a trabalhar, cada um imigrante de um lugar diferente, refugiado na França e morador de um centro comunitário de amparo. O choque entre esses dois mundo, como é de praxe nessas produções, acontece tão rapidamente quanto desaparece, porque A Brigada da Chefe tem pressa em contar sua história, definir e desamarrar seus conflitos e delimitar seu desfecho. 

Mais do que o clichê da premissa, o problema principal de A Brigada da Chefe é essa correria desenfreada em concluir seus motes e passar para o seguinte. Um filme de duração curta, com uma ênfase no dinamismo que acaba por prejudicar todo e qualquer empatia que fosse possível criar com aquele universo e seus personagens. Durante um bom tempo, a aproximação narrativa com o sensível A Noite do Triunfo persegue essa outra produção francesa, mas sobra nessa outra estreia da Imovision o que falta aqui. Um tempo especial para direcionar o olhar do espectador, e definir nosso grau de envolvimento coletivo com o que é mostrado em cena. Essa é a típica produção que essa ligação com o espectador se faz necessária. 

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O que parece estar em jogo aqui é uma espécie de gincana para encerrar a produção o mais rápido possível. Perde a leitura da personagem central, muito bem defendida por Audrey Lamy (que também está em cartaz em O Tesouro do Pequeno Nicolau). O talento da atriz não consegue sobrepor a ausência de propósito de sua personagem, que não revela muito bem suas motivações, seus sonhos, suas angústias; ela é jogada na tela, como quase todo o resto. Os adolescentes refugiados têm personalidade restrita a seu aspecto físico, porque no roteiro, são todos um bloco conjunto de pessoas que estão fugindo de onde vieram e precisam de asilo – nada além disso, em seus contornos de personagens. 

Assim como o elenco jovem é igualmente carismático e vibrante, mas não consegue fazer diferença diante de um roteiro tão chapado e pouco dedicado às pessoas que movimentam a narrativa, os adultos como Lamy e François Cluzet (de Intocáveis) desfilam arquétipos que não conseguem ter vida. O que acaba nos levando para A Brigada da Chefe é a simpatia com a situação mostrada no filme, do encontro entre esses dois mundos. Nossos traços empáticos com essas pessoas não conseguem ir além disso, porque não há construção para eles. O que está em cena é uma projeção nossa, por conta do que nosso entendimento do real e do que o cinema já fez por essa narrativa ao longo dos tempos, e não por algo exclusivamente montado aqui. 

No final de A Brigada da Chefe, o filme dá um salto de apresentação temporal e vai parar em um lugar que não fazíamos ideia de ser um interesse da protagonista. Toda a reta final é um exemplo dessa situação citada, aqui explorada com exatidão. É tudo arremessado na tela sem qualquer chance de compreensão, e a tentativa é de fazer aquilo da maneira mais sensível e amorosa possível, percebemos. Mas o filme decepa as ligações que poderia ter com as motivações de cada personagem, os tira de cena, faz tudo com uma rapidez tão descompensada, só nos restando a lamentar pelo todo. 

Um grande momento

A primeira apresentação de preparo

Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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