Crítica | Streaming

Ruído Branco

Rindo da alienação e do caos

(White Noise, EUA, GBR, 2022)
Nota  
  • Gênero: Comédia
  • Direção: Noah Baumbach
  • Roteiro: Noah Baumbach
  • Elenco: Adam Driver, Greta Gerwig, Don Cheadle, Raffey Cassidy, Sam Nivola, May Nivola, Jodie Turner-Smith, André L. Benjamin, Lars Eidinger, Sam Gold, Carlos Jacott, Francis Jue, Barbara Sukowa
  • Duração: 136 minutos

Ruído branco é aquele barulho que fica incomodando no fundo sem nunca parar, aquele defeito sonoro que não deveria existir e não chega a atrapalhar, mas incomoda, e quando prestamos atenção nele, toma conta tudo. Mesmo sendo insignificante aos que não se atentaram a sua frequência, torna-se insuportável aos que o perceberam. Se fôssemos transformar eventos da vida em sons, a morte seria o grande ruído branco da humanidade. Ela está lá, nunca vai deixar de estar, e não vai incomodar aqueles que não prestarem atenção nela, mas, por outro lado, trará desespero, pânico e obsessão para os que começarem a se importar com sua existência. Esse é o cerne do novo filme de Noah Baumbach, adaptação da obra-prima de Don DeLillo.

É de se reconhecer a ousadia do diretor em tentar adaptar uma obra tão complexa e polifônica que, ao mesmo tempo, alcança temas da vida em sociedade, e de forma perene, porque o que, na década de 1980, criticava privilégios, consumismo, academicismo e violência, segue funcionando da mesma maneira hoje. Baumbach, em um momento propício, pós-pandêmico, consegue criar uma versão propositalmente caótica do universo de Jack e Babette, destacando o medo da finitude que liga estes e outros personagens e trazendo os elementos de uma sociedade adoentada.

Ruido Branco
Wilson Webb/Netflix

Em uma transposição de época, voltando no tempo, é Murray quem introduz o espectador ao contexto geral, em uma aula para jovens alunos sobre a fascinação por desastres automobilísticos no cinema. O consumo, a morte e o espetáculo em uma colagem de imagens que ilumina o rosto de uma turma que não se incomoda em vê-las. Já Jack, Babette e seus muitos filhos, do casamento atual e relações passados, apresentam um conceito doméstico conturbado, mas estável, onde ações e diálogos se complementam sem nem sempre fazerem sentido. Academia e família se juntam nessa primeira parte do filme que, como no livro, se preocupa em apresentar os personagens.

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A estranheza dá o tom cômico a Ruído Branco, num deboche constante a tudo que ele alcança. O voltar às muitas cores, cabelos e músicas de uma época marcada pelo exagero ajuda na sensação. Há soluções cênicas interessantes para passagens compliicadas, como a justaposição dos discursos de Murray, professor de lendas vivas, e Jack, o maior especialista em Hitler dos Estados Unidos, num debate sobre a história do ditador e de Elvis Presley que, entre cortes, movimentos de câmera, mise-en-scène e imagens de arquivo, chega no fanatismo que, no fundo, é de todos

Ruído Branco
Wilson Webb/Netflix

Somos criaturas frágeis cercadas por fatos hostis.

Trazer DeLillo à tona agora faz muito sentido. Para além da perenidade do capitalismo e consumo ou de dramas íntimos atemporais, as palavras do escritor estadunidense cabem muito bem a um país que ainda não conseguiu superar a devastação do trumpismo – substitua-se Trump por qualquer figura moldada por Bannon em outro país – e se vê em orgulhosas ondas reacionárias e supremacistas. Há ainda uma discussão que se aproxima da questão ambiental e, obviamente, dos efeitos da pandemia de Covid-19, que isolou pessoas, causou o caos e fez com que o medo da morte, ou o ruído branco, se tornasse muito mais perceptível para tantos, em todos lugares. Em seu arcade retrô, Baumbach nos faz bater e rebater nessas associações, com uma adaptação difícil e inteligente.

Porém, lidar com a pluralidade de eventos nesse vai-e-vem e com solavancos frenéticos tem um preço e a desordem, por vezes, compromete a trama. Nada que as atuações inspiradas de Adam Driver (História de um Casamento), especialmente fascinante como o hitlerólogo que não sabe falar alemão ou o marido/pai de família preso em si mesmo; Greta Gerwig (Frances Ha), Don Cheadle (Hotel Ruanda) e a jovem Raffey Cassidy (Vox Lux) não consigam remediar. Assim, saltos entre os vários tipos de violência, com direito a discurso enviesado e intelectual sobre sua função, e o recado em um adesivo; e transições entre o fetiche dos desastres e a interação entre o que o autor pensa, mas também realiza chegam chegam bem.

Ruído Branco
Wilson Webb/Netflix

Mesmo que haja cansaço, há vontade de ter mais de toda a discussão sobre a família como berço da alienação; da questão de classe e distribuição urbana; da ilusão dos farmacos para escapar da realidade e o poder da sugestão; até mesmo da grande questão teológica por trás de tudo, é difícil resistir à concepção deste que é um dos maiores templos do consumo, exposto como o mais importante espaço social e uma grande metáfora da vida. Interessante em suas associações e forte em sua crítica, Ruído Branco é um filme que diverte apesar dos tropeços e uma ótima e reflexiva pedida para encerrar esse ano.

Um grande momento
O pesadelo

Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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