Crítica | CinemaDestaque

A Casa Sombria

A arquitetura do horror a partir do luto

(The Night House, GBR, EUA, 2020)
Nota  
  • Gênero: Terror
  • Direção: David Bruckner
  • Roteiro: Ben Collins, Luke Piotrowski
  • Elenco: Rebecca Hall, Sarah Goldberg, Vondie Curtis-Hall, Evan Jonigkeit, Stacy Martin, David Abeles, Christina Jackson, Patrick Klein
  • Duração: 107 minutos

“Seria mais fácil me esquecer da própria vida
Do que esquecer você”

Dor e morte num morro onde o vento uiva

Dor e morte numa casa à beira do lago, onde a água tremula, portas batem, espelhos embaçam e o som se liga tocando aquela música preferida… É sabido que as melhores histórias de fantasmas são histórias de amor e muitos cineastas contemporâneos estão trazendo à tona narrativas frescas influenciadas pelo horror gótico, como Mike Flanagan (A Maldição da Mansão Hill/Mansão Bly) e agora David Bruckner com esse A Casa Sombria.

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O terror que desperta do que não é visto mas sentido, até sexualmente, tão bem explorado em O Homem Invisível de Leigh Whannell, aqui ganha uma conotação mais lúgubre nas colunas, paredes e sinuosidades de uma bela casa de madeira e vidro, projetada por Owen (Evan Jonigkeit) para ser o lar da sua esposa, a professora Beth (Rebecca Hall). Solitária após o trágico suicídio dele, ela percorre os estágios do luto enquanto sofre com terrores noturnos.

A Casa Sombria
© Searchlight Pictures

“Bad dreams in the night
They told me I was going to lose the fight”

O que Owen soube depois de casado é que Beth tem um admirador tétrico e insistente, aquele que já se apaixonou irremediavelmente por Inês de Castro, Marguerite “A Dama das Camelias”, Emily Dickinson e pela Cat do Heathcliff. Mas como num bom jogo de xadrez, ele foi tapeado até que provou que jamais pode ser superado já que é inevitável.

Junto com os roteiristas Ben Collins e Luke Piotrowski, o cineasta — um dos diretores da antologia de terror V/H/S — entrega uma desconstrução do filme sobrenatural com A Casa Sombria, cristalizando sua narrativa no luto de Beth, a personagem vivida de forma profunda e marcante por Hall (de O Despertar, outro grande momento dela no gênero). Mas diferente do que o folclore do gênero diz sobre casas mal assombradas, de arquitetura gótica ou vitoriana, a casa moderna traz uma reinvenção do que significa o “habitado” por espíritos, entes queridos ou outros além da compreensão. Quando a noite cai, Beth tem um sono sempre intranquilo e nunca acorda na cama. A Casa Sombria é uma contraparte noturna, um receptáculo de um mundo invertido talhado como um labirinto grego.

No design da trama, os elementos que vão trazendo camadas ao mistério evocam a clássica necessidade da personagem principal, protagonista, de ir até o fundo do vespeiro. Ocultismo se abraça ao luto, afinal, o vazio que permeia a existência de Beth se torna uma coisa voraz, que precisa ser alimentada até que o curioso bilhete Suicida seja desvendado (Não há nada/Ninguém está atrás de você, Não há nada além de você/Você está segura). Mas se não há nada, porque ela tem que se preocupar? E nisso, nessa busca, no mergulhar nas lembranças que brilham sedutoras como vagalumes quando a noite cai — revelações do outro lado do lago, como no sublime e gótico anime do studio Ghibli As Memórias de Marnie — aprendemos que o labirinto é a armadilha de Dédalo e talvez o artifício que pode enganar até a morte.

A Casa Sombria
© Searchlight Pictures

“Ooh, it gets dark, it gets lonely
On the other side from you
I pine a lot, I find the lot
Falls through without you”

Ben Lovett, o compositor da trilha sinistra e extremamente poderosa na manutenção do clima de inquietude entre sintetizadores — herança dos giallos e filmes de Carpenter — e pianos ou outros instrumentais acústicos que ressoavam melancolia ilustrando as noites mal dormidas e descobertas de Beth. Uma pista inclusive está escondida na letra de Calvary Cross, a música de Richard e Linda Thompson que toca no casamento de Beth e Owen e segue a assombrando.

Se tudo o que o marido morto fez foi por ela, processamos o clímax já sem muita surpresa após a visita de Madeleine (Stacy Martin). Porém o plot twist arquitetado por Bruckney provoca arrepios, chegando ao ápice da exploração da diegese. E algumas cenas soam um pouco estranhas? Sim, mas jamais inverossímeis pois o desespero da personagem é tátil. Hall se entrega e deixa tudo factível, a viúva sendo um pêndulo entre a dolorosamente insana dor e a sobriedade da tristeza.

A Casa Sombria
© Searchlight Pictures

“Too long I roam in the night
I’m coming back to his side, to put it right”

Outro grande destaque do elenco, predominantemente feminino, é Sarah Goldberg, como a apaixonada amiga de Beth, a também professora Claire. Cética, ainda assim ela não hesita em dar cafunés ou prestar socorro a uma Beth à beira do abismo. E de novo, o que Rebecca Hall faz é sublime, uma composição cheia de sutilezas, da excruciante dor da ausência que somada à perturbação que sofre cria uma empatia instantânea. Comparativamente é uma jornada de uma mulher amaldiçoada, como a da personagem de Essie Davis no neoclássico filme de Jennifer Kent, O Babadook.

A geografia e arquitetura são parte fundamental na mis-en-scène de um filme de horror; um lugar permeia o imaginário, povoa todas as frestas da mente de alguém suscetível. Owen começou a ouvir sussurros quando construiu a Casa Sombria. Tornou-se sonâmbulo, vagueando… Num ambiente cheio de vão, vidros, espelhos e reflexos com uma decupagem de planos e jogo de câmeras sendo muito bem pensados para suscitar a “presença” vagando pelos cômodos, o filme vai preenchendo vazios ao restaurar a inventividade no próprio gênero cinematográfico.

Um grande momento
“Eu estou aqui” no espelho

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Lorenna Montenegro

Lorenna Montenegro é crítica de cinema, roteirista, jornalista cultural e produtora de conteúdo. É uma Elvira, o Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema e membro da Associação de Críticos de Cinema do Pará (ACCPA). Cursou Produção Audiovisual e ministra oficinas e cursos sobre crítica, história e estética do cinema.
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