Crítica | CinemaDestaque

Aranha

O mal que nunca acaba

(Araña, CHL, ARG, BRA, 2019)
Nota  
  • Gênero: Drama
  • Direção: Andrés Wood
  • Roteiro: Guillermo Calderón
  • Elenco: Mercedes Morán, María Valverde, Marcelo Alonso, Pedro Fontaine, Gabriel Urzúa, Felipe Armas, Caio Blat, María Gracia Omegna, Mario Horton, Sergio Piña
  • Duração: 105 minutos

“Você parece um minion”. A frase dita em certo momento de Aranha, drama ficcional de Andrés Wood, não tem nada a ver com o nosso contexto atual, ao mesmo tempo tem tudo a ver com o Brasil de hoje. Ali, dentro da tela, dita por uma parceira mais jovem, referia-se à aparência física de Gerardo, mas Guillermo Calderón, roteirista do filme, obviamente pensava nos seres como uma referência perfeita para seguidores cegos. Aqui, encontra o Brasil da camisa da CBF e dos ivermectizados sem máscara que ganharam essa alcunha antes do filme ser lançado no Chile.

O filme volta no tempo para escancarar o retorno da onda conservadora de ultradireita que assola o mundo e mostrar que seus galhos brotam sempre das mesmas raízes, com todos os seus privilégios e usando o seu poder para arrebanhar grupos que acreditam em falsos ídolos e inimigos imaginários. A história acompanha o trio Inés, Justo e Gerardo, integrantes do grupo Pátria e Liberdade, organização terrorista ultranacionalista chilena, que defendia a tomada a força do governo de Salvador Allende e o golpe militar de Augusto Pinochet, o ditador mais sangrento da América do Sul.

Aranha
Foto: Divulgação

Se boa parte do Pátria e Liberdade era formada pela elite chilena, ela está representada pelo casal Inés e Justo. Defendendo os mesmos interesses, mas do outro lado da corda, aquele que sempre arrebentará primeiro, está Gerardo. Essa formação, que parece ser simples, é elaborada por trazer o funcionamento de certas estruturas nocivas à democracia e à sociedade. Os que têm e pensam exclusivamente em seus interesses, e aqueles que se inebriam com uma ilusão prometida, com elementos criados que são compartilhados com fins manipuladores, e que pensam assim estar fazendo parte de algo muito maior. Os que querem se dar bem e os que querem mostrar sua relevância, com um grupo se aproveitando do outro, obviamente.

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Aranha, o título vem do símbolo, ou melhor dizendo da versão da suástica, da organização terrorista, tem uma estrutura não linear, o que é muito pertinente para mostrar o quanto o passado e o presente se confundem e como os elementos nocivos vão atravessando gerações, sempre prontos a renascer cheios de novos fiéis. O voltar ao presente de Gerardo, que vem com o choque da inversão suprema de valores, mostra que a facilidade para a manipulação de mitos e teorias é real e pode surgir do nada. Ao mesmo tempo, é esse retorno que demonstra que nada acontece àqueles que buscam as mudanças — independe do modo aplicado — visando a manutenção de seus privilégios e de poder. Os ricos estão ainda mais ricos, ocupam cargos importantes e nunca tiveram que pagar ou qualquer coisa que o valha por aquilo que fizeram.

Aranha
Foto: Divulgação

As idas e voltas no tempo de Aranha, ao delimitar o escopo, demonstram a intimidade do movimento, e nauseam pelas brincadeiras de Justo com Gerardo e pelo modo como este vira um joguete na mão do casal e de toda a organização. O que estava no passado chega diferente no presente, mas não sem que a diferença de classes esteja muito evidente. O que Wood faz para ligar esses tempos sem que eles se percam, encontrando conexões que complementam a mensagem é interessante e o elenco é fundamental para que tudo dê certo. Entre os destaques estão Mercedes Morán e María Valverde como Inés, Marcelo Alonso e Pedro Fontaine como Gerardo, e Gabriel Urzúa como o Justo jovem. O brasileiro Caio Blat participa do filme como o líder do Pátria e Liberdade.

Bem cuidada, a produção de Aranha, com arte e figurino elaborados, transporta os espectadores e, ao recuperar esse passado próximo da América Latina, compartilhado em graus diferentes de crueldade por tantos países, retrata um presente que flerta com o extremismo e a intolerância. É um filme duro de se ver por toda a sua conexão com a realidade, e talvez chegue diferente em outras terras onde não existam pessoas mascaradas com tochas em frente ao Supremo Tribunal Federal, onde a ameaça armada tornou-se uma forma de intervir nas instituições e onde a população pede a intervenção militar.

Um grande momento
Tiros da ponte

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Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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