Crítica | Streaming

A Caverna

(Time Trap, EUA, 2017)

  • Gênero: Ação
  • Direção: Mark Dennis, Ben Foster
  • Roteiro: Mark Dennis
  • Elenco: Andrew Wilson, Cassidy Gifford, Howey Brianne, Reiley McClendon, Olivia Draguicevich, Max Wright, Sabin Smith, Rich Skidmore, Chris Sturgeon
  • Duração: 87 minutos
  • Nota:

Assistir a A Caverna provoca um misto de sentidos que vão do prazer (culposo?) à tristeza. Dos lançamentos das plataformas de streaming da semana passada que versaram sobre elementos fantásticos invadindo as narrativas de seus personagens, tratados de forma surpreendente ou com aceitação coloquial, esse aqui não apenas tem o conceito mais interessante como também é o menos abordado anteriormente, o que dá ao filme um aspecto refrescante que não há em Power ou Correndo contra o Tempo; a curta duração não apenas redimensiona esse prazer como dá ao filme uma característica rara – sentimos falta do longa assim que ele termina.

Com menos de 1h30 de duração e praticamente centrado num único espaço cênico, um corredor de túneis subterrâneos numa montanha deserta que se fecham na caverna do título em português, o filme surpreende ao não se esgotar rapidamente e mantém um ritmo fluido renovando constantemente o interesse do espectador rumo à uma camada de descobertas constantes que sempre modificam não apenas a percepção dos personagens quanto a recepção de quem assiste, elevando as expectativas em relação ao filme ao mesmo tempo que nunca deixa de mostrar suas parcas ambições enquanto produto – divertir e entreter.

Andrew Wilson em A Caverna (2017)

A Caverna não se permite ambicionar mais porque nunca esconde como seus recursos financeiros não são abundantes. A dupla de diretores Mark Dennis e Ben Foster (não confundir com o ator homônimo) está em seu segundo longa e ainda não tem os recursos necessários para realizar grandes proezas, ou inundar a tela com sua visão fantástica. Orçado em parcos 1 milhão de dólares, é de espantar o tanto que foi conseguido com tão pouco, e então a admiração pela obra até se expande diante dos extremos de possíveis impedimentos. Ainda assim, o roteiro de Dennis abre um leque de possibilidades com suas muitas fissuras temporais que se abrem a cada nova descoberta do quarteto em cena, divididos com o espectador igualmente surpreso.

Desde o início, o mote a respeito da procura por uma fonte da juventude se mostra na narrativa explicitamente, mas a expectativa com determinadas saídas dramáticas são suplantadas com constantes plots divertidos e sedutores, tanto nas soluções dramáticas quanto nas visuais, dentro do já compreendido escopo reduzido pela economia necessária. Aos poucos, quando já for assimilado que não se trata de uma superprodução Marvel com centenas de milhões a disposição, a criatividade em levar ao cabo a proposta extraordinária que assola o longa é reconhecida e apreciada. Com uma estrutura onde são empilhadas viradas deliciosas, o filme ganha fácil o espectador que entender suas limitações.

A Caverna (2017)

O elenco repleto de rostos desconhecidos tem em seus integrantes mais jovens, Max Wright e Olivia Draguicevich, os destaques carismáticos do grupo; o restante não causa feio, mas nenhum deles também eleva o material filmado. Menos mal que A Caverna não necessariamente procura neles um ponto de apoio empático; é a própria “caixa” de descobertas dos personagens que nos leva a mergulhar no filme, quase como se estivéssemos na mesma posição de desbravadores que eles, que estão em busca de um professor desaparecido. Como se trata de um grupo jovem e esteticamente padronizado, os diretores pegam o espectador pela mão e nos convida a testemunhar junto com eles um universo vasto de descobertas, todas definitivas para suas vidas.

Como se portar diante das revelações e do tempo particular que o filme apresenta aos seus personagens?, é a base das questões de onde A Caverna nos convida a analisar, mas com a segurança que a posição de espectador nos dá. Partindo de uma (ou mais de uma) busca muito humana e pessoal e chegando num ambiente desconhecido para todos, o filme poderia claramente ser ampliado para uma cinessérie de capítulos muito ricos e abrangentes sobre como se portar ante uma realidade completamente nova. Do jeito que ficou, reside na produção um caráter sedutor pela ausência de exploração e as imensas possibilidades não acessadas em sua duração; daí o prazer e a tristeza.

Um grande momento
O professor vê todas as camadas à sua frente

Ver “A Caverna” na Netflix

Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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