Crítica | Festival

A Contrabandista

Caminho de volta

(Bootlegger, CAN, 2021)
  • Gênero: Drama
  • Direção: Caroline Monnet
  • Roteiro: Caroline Monnet, Daniel Watchorn
  • Elenco: Pascale Bussières, Devery Jacobs, Samian, Jacques Newashish, Dominique Pétin, Joséphine Bacon, C,S, Gilbert Crazy Horse, Brigitte Poupart, Charles Bender
  • Duração: 81 minutos

Foram quatro gerações tentando nos destruir e vai levar quatro gerações para que nos curemos. Quem fala isso é a anciã de uma comunidade de povos nativos norte-americanos devastada pela ocupação e tentativa constante de dizimação dos brancos no Canadá e que atualmente sofre as consequências do consumo de álcool por seus habitantes. A fala está em A Contrabandista, longa escrito e dirigido pela algonquina-franco-canadense Caroline Monnet, que acompanha uma jovem que, há tempos afastada de seu povo e desconsiderando seu próprio passado, volta com ideias para a situação.

O filme faz as abordagens habituais a temas conhecidos e universais, reconhecíveis em países que sofreram a colonização sanguinária das Américas. Ali estão as estruturas sociais e familiares, e aspectos humanos que remetem à culpa, ao abandono, à dependência e ao ressentimento. A falta de estrutura e a inércia são marcas de uma sociedade que busca se reencontrar, assim como uma certa confusão identitária, comum no confronto geracional. Memória e apagamento também têm o seu lugar de destaque.

A Contrabandista
Microclimat Films

Percebe-se que Monnet tem a vontade de falar de tudo e atingir a complexidade daquilo que se dispõe a colocar em discussão, mas não há como se aprofundar quando tantos detalhes têm relevância. Além de toda a dificuldade na abordagem nas questões sociais, há ainda o desdobramento temático quando coloca em tela um dos polos da ação, aquela que se beneficia com a entrada do álcool na comunidade.

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São histórias que se conectam, obviamente, mas sem tanta fluidez e equilíbrio. A atenção a uma das partes e o interesse do espectador variam, algo que nunca é positivo a um filme. A parte política de A Contrabandista é arrastada e maçante e talvez o seu melhor momento esteja em um discurso recuperado, não no modo como ele é filmado e nem mesmo como está inserido no filme, mas apenas por aquilo que ele diz.

A Contrabandista
Microclimat Films

Mais importante por sua mensagem e pela efetiva vontade de levar à discussão um tema que realmente precisa ser discutido e considerado. A abordagem geracional, o afastamento das origens e essa busca pelas raízes, são coisas que dão valor a A Contrabandista, e o modo como a diretora insere os personagens naquela realidade, seja espacialmente ou afetivamente é muito interessante, mas, infelizmente, falta muito ao filme.

Um grande momento
“Por que você não me defendeu?”

[13º MyFrenchFilmFestival]

Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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