Crítica | Festival

A Deusa dos Vagalumes

(La déesse des mouches à feu, CAN, 2020)
Nota  
  • Gênero: Drama
  • Direção: Anaïs Barbeau-Lavalette
  • Roteiro: Catherine Léger
  • Elenco: Kelly Depeault, Caroline Néron, Normand D'Amour, Éléonore Loiselle, Robin L'Houmeau, Antoine DesRochers, Noah Parker, Marine Johnson, Zeneb Blanchet, Ambre Jabrane, Laurence Deschênes, Maxime Gibeault
  • Duração: 105 minutos

Todos os dias quando acordo
Não tenho mais o tempo que passou
Mas tenho muito tempo
Temos todo o tempo do mundo

Todos os dias antes de dormir
Lembro e esqueço como foi o dia
Sempre em frente
Não temos tempo a perder

Não importa qual seja a época, o sobreviver à vida quando se deixa de ser criança, em uma realidade que o contraria, oprime e com a qual não se concorda, é sempre difícil. Não importa se o movimento é o punk, o grunge, o dark ou o emo; se quem traduz sua inadequação é Legião Urbana, Nirvana, Eminem ou Billie Eilish, e de que maneira suas insatisfações vão ser extravasadas, pontos de convergência sempre estarão ali para mostrar que a ruptura faz parte do ser humano e o viver sem se importar, tomado pela sensação de superpoderes natural da idade, pode ser uma escolha.

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A Deusa dos Vagalumes

E é a que faz Catharine, enquanto se vê como um joguete no meio da briga dos pais e quando, simplesmente, quer descolar-se da realidade em que vive. O drama canadense A Deusa dos Vagalumes, baseado no livro homônimo de Geneviève Pettersen, consegue alcançar esse sentimento juvenil de urgência, de viver a vida como se ela fosse acabar a qualquer momento, a pressa dos que mesmo tendo todo o tempo do mundo, não têm tempo a perder.

Nosso suor sagrado
É bem mais belo que esse sangue amargo
E tão sério
E selvagem

Veja o sol dessa manhã tão cinza
A tempestade que chega é da cor dos teus olhos
Castanhos

Então me abraça forte
Me diz mais uma vez que já estamos
Distantes de tudo

Nunca sozinha — eles nunca estão –, Catharine encontra outros que têm a mesma urgência de não estar no mundo junto com ela, e passa seus dias. Essa dinâmica de ausência de limites é muito bem explorada na relação entre os jovens. A Deusa dos Vagalumes não só fala do perigo, o concretiza, e assim dá força ao tomar a decisão pelo caminho a seguir. Se há noção, não importa. Há ação e perigo.

A Dama dos Vagalumes

A diretora Anaïs Barbeau-Lavalette é precisa na condução de seu elenco, conseguindo trazer verdade ao que retrata, além de, junto com seu fotógrafo Jonathan Decoste, impressionar com quadros que traduzem aquilo que vivem seus personagens. Ela também equilibra bem os eventos e se se atrapalha é quando deixa o ambiente dos jovens e precisa assumir outros ritmos, mas nada que comprometa o conjunto.

Quem vive Catherine é Kelly Depeault que consegue construir uma personagem interessante, num tom que não parece nunca ultrapassar seus pontos, o que, estranhamente, confere uma autenticidade adolescente à protagonista. Ela é aquela menina de 17 anos que não esconde seu sofrimento, mas deixa claro estar ali porque quer e que está satisfeita por fazer o que quer e vai deleitando-se ou assustando-se, ou não, com o que acontece.

Não tenho medo do escuro
Mas deixe as luzes
Acesas agora

O que foi escondido
É o que se escondeu
E o que foi prometido
Ninguém prometeu

Nem foi tempo perdido
Somos tão jovens

A Deusa dos Vagalumes é um filme de uma época exata, bem determinada, inclusive, mas fala de muitas meninas e meninos de vários tempos, de histórias familiares que não têm língua, cor, raça ou credo. De um momento da vida, do estar e do não querer estar, de um existir associado a um pertencimento confuso, e de urgência por sentir, por viver e, ao mesmo tempo, por não viver mais, por fugir de tudo.

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[44ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo]

Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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