Crítica | FestivalMostra SP

O Neon Através do Oceano

Tempos de crise

(The Neon Across the Ocean, AUS, PHI, 2020)

  • Gênero: Drama
  • Direção: Matthew Victor Pastor
  • Roteiro: Matthew Victor Pastor
  • Elenco: Waiyee Rivera, Gregory Pakis, Corey Reason, Alfred Nicdao, Lilibeth Munar
  • Duração: 91 minutos
  • Nota:

Logo nos primeiros minutos de O Neon Através do Oceano, 2020 é apresentado como um ano de crise. Ainda que se refira sobretudo à pandemia COVID-19, essa crise caracteriza um ano em que questões morais, éticas e políticas alcançaram novas proporções nesse contexto. O diretor filipino-australiano Matthew Victor Pastor elabora sua trama em um futuro não tão distante, em que há uma tentativa de retomada de uma vida normal e que este “normal” não é tão “novo” quanto se convencionou pensar nas experiências da pandemia, mas que coloca em xeque as nossas relações interpessoais.

O Neon Através do Oceano é a primeira parte do que Pastor intitulou de Trilogia de 2020, concebida a partir do isolamento e das normas de convívio estabelecidas pelas entidades de saúde. Cada filme é situado em um momento diferente, sendo este no futuro, A Pencil to the Jugular (finalizado) no presente e Plans That They’ve Made (em pré-produção) no passado. Ainda que os filmes aparentemente não se comuniquem diretamente, a não ser pela situação pandêmica que ambienta os três, Pastor propõe uma forma de leitura que começa no futuro (as consequências) até voltar para o passado (as origens).

O Neon Através do Oceano

É um gesto curioso, sobretudo porque o trato com a temporalidade é importante não apenas para a sistematização da Trilogia de 2020, mas também como elemento diegético de O Neon Através do Oceano. Assim, ao ser ambientado no futuro – daqui a alguns dias, para ser mais preciso –, o roteiro entrelaça o presente e o passado de Mandy, uma jovem que está prestes a concluir o Ensino Médio e em transição para a vida adulta. Ela mora com o pai em Melbourne, estado de Vitória, na Austrália, em um pequeno apartamento, mas a relação entre eles não é das melhores. A mãe viajou para Manila, nas Filipinas, para cuidar de um parente doente. Algo se rompeu entre todos eles, algo bem anterior à pandemia, mas que se potencializou com ela. Enquanto tenta modular suas relações parentais, Mandy se aproxima de Serena, tutora que a auxilia nos estudos.

Enquanto acompanhamos a rotina de Mandy, uma narradora revive questões familiares do passado e vemos flashbacks que se associam, de alguma forma, com o que é tratado no momento presente da protagonista. Conhecemos um pouco mais sobre a personalidade do pai australiano e dos esforços da mãe filipina em assumir as rédeas da família, colocando em perspectiva também a questão da migração. Novos personagens começam a surgir do segundo para o terceiro ato, na intenção de sustentar tal ruptura familiar, mesmo que nem sempre traga informações suficientes para nos importar com as traições, o divórcio iminente e o próprio despertar sexual de Mandy.

O roteiro é sempre mais contundente quando mostra as ruas da cidade ainda pouco movimentadas pós-pandemia ou mesmo ao investigar as consequências físicas e psicológicas nos personagens. Mandy se recusa a comer o tempo inteiro, como se seu corpo não dependesse mais do alimento para existir, enquanto seu pai só dorme e disfarça o desprezo que tem pela garota. Quando Pastor olha profundamente para os personagens, o filme ganha fôlego porque eles enfrentam um mal estar gigantesco – entre eles mesmos e com o mundo. É nessa sugestão de como estaremos daqui a alguns dias, quando tudo isso passar, que a trama cresce porque nos convida a mergulhar no trauma e nas mudanças que tivemos em 2020. Assim, o encantamento de Mandy por Serena é um sopro de esperança no meio dessa apatia pelo mundo. Os passeios pela cidade e as conversas no carro propõem a reconexão com os outros, uma retomada dos afetos pós-catástrofe. É quando o elenco também desrobotiza e se abre para os sentimentos de suas interpretações.

O Neon Através do Oceano

O que não deixa de ser uma surpresa em O Neon Através do Oceano é o valor de produção considerável ao ser concebido em um momento de pandemia e ao articular questões ainda inquietantes sobre como a vida será retomada. Realizado por uma equipe pequena e seguindo as normas de distanciamento social, o longa-metragem contorna bem essas limitações, mesmo que ainda tropece na harmonia entre os temas que discute – talvez pela pressa em montar, finalizar e exibir como um “filho da pandemia”. 

Pastor parece seguir um processo criativo próprio, que independe das circunstâncias para acontecer e não deixa de ser ambicioso. Em 2018, o diretor chegou a realizar três longas-metragens e, em uma carreira de menos de 10 anos já tem mais de 15 produções no currículo, entre curtas e longas, com as mais variadas propostas narrativas. Trazendo para O Neon Através do Oceano traços autobiográficos da infância conturbada com seu pai, Pastor usa suas luzes para iluminar não somente o título desta obra, mas também toda essa tristeza causada pelo isolamento, questionando se ele já não existia e o quanto dele ainda permanecerá entre nós. 

Um grande momento
Quando Mandy e Serena se tocam

[44ª Mostra de São Paulo]

Diego Benevides

Diego Benevides é jornalista, pesquisador, crítico e curador de cinema. Doutorando em Comunicação pela Universidade Federal do Ceará (UFC) com pesquisa em cinema brasileiro. Membro da Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine) e sócio-fundador da Associação Cearense de Críticos de Cinema (Aceccine)
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