(The Party, GBR, 2017)
Comédia
Direção: Sally Potter
Elenco: Timothy Spall, Kristin Scott Thomas, Patricia Clarkson, Bruno Ganz, Cherry Jones, Emily Mortimer, Cillian Murphy
Roteiro: Sally Potter, Walter Donohue
Duração: 71 min.
Nota: 6 ★★★★★★☆☆☆☆

A Festa, novo filme de Sally Potter, tem um título mais instigante no original, onde The Party traz um trocadilho que pode ser traduzido tanto como A Festa, como no título em português, ou como O Partido. A trama se desenrola na casa de Janet (Kristin Scott Thomas) e Bill (Timothy Spall), que recebem os amigos de longa data para comemorar a nomeação dela ao cargo de ministra de saúde. Aquela reunião agrupa figuras dessa esquerda que se autoproclama progressista e tem um discurso afiado, mas não vai muito além da superfície.

Janet dedicou sua vida ao partido de esquerda que agora a possibilita assumir o novo cargo e Bill é um acadêmico que não investiu na carreira para apoiar a esposa. Os convidados são April (Patricia Clarkson), uma cínica adepta do realismo crítico; Gottfried (Bruno Ganz), seu marido e uma espécie de coach pessoal afeito a misticismos; Martha (Cherry Jones), uma ativista homossexual especialista em diferenças de gênero; sua esposa Jinny (Emily Mortimer), uma feminista radical que está grávida de gêmeos, e Tom (Cillian Murphy), um financista neoliberal, ou o contraponto a tudo o que ali se apresenta.

Juntos, em embates contínuos, os personagens vão se apresentando e evidenciando suas superficialidades e hipocrisias. Essa espécie de Huis clos expandida e diversificada compõe um retrato dessa esquerda de sofá que se vê engolida por uma onda reacionária de ultra-direita mundo afora, sem saber muito bem o que fazer ou mesmo como se localizar na situação. E é muito significativo que para fazer essas caricaturas se busque a inspiração no existencialismo de Sartre, um pensador obviamente popular entre todos eles.

Se contextualmente há validade na proposta da diretora, o filme vacila ao construir a sua trama. Embora busque um conjunto composto por subciclos – nos núcleos dos casais – que são contraditórios a priori, não faz com que essas relações se sobreponham à superficialidade – ainda que intencional – que o filme inspira. Sem a conexão com os personagens, resta ao público acompanhar o tour verborrágico que vai da determinação de personas ao desenvolvimento de situações.

O tom teatral, comum em jogos verbais do tipo e condizente com a inspiração principal do longa, é evidente, e é incômodo ver que Potter tem uma certa resistência ao assumi-lo, seja com movimentos de câmera ou a fotografia em preto e branco.

Os tropeços, porém, não fazem com que essa evidenciação da esquerda intelectual deixe de ser interessante, principalmente nesse momento pelo qual o mundo passa, e quando esses discursos são mantidos e reverenciados sem que cheguem perto de se concretizar. Além, também, de ser uma boa comédia, com diálogos afiados, um elenco incrível e personagens curiosos.

Um Grande Momento:
Me segura porque isso contraria aquilo no que acredito.

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Crítica originalmente publicada na revista Lume Scope.