Crítica | Streaming

A Garota do Terceiro Andar

(The Girl on the Third Floor, EUA, 2019)
Nota  
  • Gênero: Terror
  • Direção: Travis Stevens
  • Roteiro: Greg Newman, Trent Haaga, Travis Stevens
  • Elenco: C.M. Punk, Trieste Kelly Dunn, Sarah Brooks, Elissa Dowling, Karen Woditsch, Travis Delgado, Marshall Bean
  • Duração: 93 minutos

Um mês depois de disponibilizar a bem-vinda “bizarrice tosco-trash” Perfeição Insondável, a Netflix resolve responder com algo tão insólito quanto, entregando o esquisitíssimo A Garota do Terceiro Andar na abertura do seu catálogo de novidades do mês. Em tese, trata-se de mais um “filme de casa estranha, provavelmente assombrada tentando se vingar dos novos donos por crimes do passado que nada tem a ver com eles”, porém muito rapidamente percebemos que não estamos lidando com um filme como outro qualquer, e sim com uma produção bem biruta na forma como apresenta seus elementos, em como os aborda e em como todas as percepções do espectador são positivamente infundadas.

Desde os créditos de abertura, com super closes de detalhes da casa-personagem, fica claro que Travis Stevens, seu roteirista e diretor, quer oferecer uma experiência ao espectador, muito mais do que um filme comum. E incomum é tudo que a produção pretende ser, com escolhas extrafílmicas igualmente não usuais, fazendo o filme adquirir uma atmosfera que varia entre o kitsch e o propositadamente cafona, ainda que esteja aí um de seus valores mais orgânicos. Diferente do filme dirigido por Braden Duemmler, aqui nada aspira uma atmosfera cinematográfica oitentista nem sugere um revisionismo ao noir; a estranheza generalizada evoca um cinema com raízes nos anos 1970 em sua estética.

A Garota do Terceiro Andar

Da pontual utilização do zooms em determinadas cenas indo até sua própria base narrativa que flerta com o ordinário, A Garota do Terceiro Andar também provoca com o flerte rasgado ao moralismo cristão que invade seu roteiro. O cenário principal do filme é uma casa que no passado era o espaço onde funcionava um prostíbulo, palco de shows burlescos e que ficou conhecido por uma tragédia envolvendo algumas das meninas que se apresentavam por lá. Além disso, o protagonista é um homem refém de tentações da carne e da corrupção que será testado em cena. Para completar o quadro, uma pastora mora na frente do cenário e fica clara sua recusa em adentrar aquele espaço sempre que convidada.

Enquanto produção de gênero, os interesses de Stevens são mais gráficos do que práticos, abrindo mão dos inconvenientes jump scares para provocar nojo com uma espécie de gore censura livre. Como sua narrativa é alicerçada na culpa cristã de seu protagonista (ou que seria essa a última tentativa de tentar esse homem), os fluídos que são evocados no grafismo da produção vão além do sangue e englobam também sêmen em quantidades generosas, e servindo a propósitos verdadeiramente nojentos em cena. A direção de arte acaba tendo um acabamento superior, afinal é um filme cujo espaço cênico é constantemente alterado e se apresenta de maneiras sempre exuberantes.

A Garota do Terceiro Andar

Duas escolhas no elenco são igualmente interessantes. No protagonismo da história temos C.M.Punk, ex-competidor de luta livre profissional já aposentado cujo corpo absolutamente repleto de tattoos é uma atração à parte na produção, tendo em vista que um cara como ele dificilmente seria escolhido para o centro de uma narrativa envolvendo um futuro pai de família, e cujo tórax todo desenhado é explorado constantemente pela direção, quase fetichizando um homem fora dos padrões habituais. A segunda é Karen Woditsch, que se assemelha com Frances McDormand em reações, expressões e postura, em uma personagem repleta de mistério e um certo nonsense.

São inúmeras dicas de que A Garota do Terceiro Andar é mais um exemplar de cinema celerado, fora da casinha e proposto atualmente a um nicho muito específico de público e que a Netflix está sabendo captar como uma deficiência do mercado hoje. De visual extravagante e moral questionadora de travas impostas, o produto que Travis Stevens entrega é cheio de gosma, sangue e desconforto. O suficiente para sair do lugar habitual visto hoje na guerra dos streamings e cujo consumo será muito melhor apreciado por quem abraçar seu compromisso exclusivo com a disruptividade narrativa.

Um grande momento
Don e o primeiro encontro com a cenobita (???)

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Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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