Crítica | Cinema

A Última Noite

Livre arbítrio no caos

(Silent Night, GBR, 2021)
Nota  
  • Gênero: Terror
  • Direção: Camille Griffin
  • Roteiro: Camille Griffin
  • Elenco: Keira Knightley, Matthew Goode, Roman Griffin Davis, Annabelle Wallis, Lily-Rose Depp, Sope Dirisu, Kirby Howell-Baptiste, Lucy Punch, Rufus Jones
  • Duração: 92 minutos

Com o advento dos canais de streaming, cada vez mais os anos são recheados de produções natalinas cada vez mais dispensáveis, mas que enchem de sucesso a Netflix e suas concorrentes, sempre repetitivas, mas que fazem a festa de quem não se preocupa com novidades. Esse ano, os cinemas receberão apenas uma aposta do gênero, e A Última Noite abre de maneira tão trivial quanto todos os outros. Produção britânica que parece querer celebrar o amor e o perdão (a protagonista repete essa intenção algumas vezes), rapidamente tudo que parece vazio e sem sentido encontra lugar à mesa, e a trama adquire ares bem mais fantásticos do que imaginávamos.

Há quase 20 anos a diretora Camille Griffin vem entregando curtas metragens, e agora enfim estreia em longas com um roteiro próprio – e filhos também. Ela é a mãe de Roman Griffin Davis, o Jojo Rabbit, e além de contar com ele no elenco também trouxe seus outros filhos, os gêmeos Hardy e Gilby. Esse aspecto familiar que Griffin levou para o projeto era necessário para dar à própria produção uma sensação de porto seguro aos seus personagens, um grupo de amigos de adolescência que decidiu passar o último Natal juntos em um pacto que não é rapidamente revelado, mas que aos poucos revela não apenas um tanto dos personagens em cena, mas principalmente metaforiza anseios sociais contemporâneos.

A Última Noite
Divulgação

Um estudo comportamental nasce não apenas da ambientação familiar, de como se desenha aquelas relações, de onde os afetos vem também vem inúmeros segredos e assuntos não ditos, mas além dessas questões, o filme conta com uma ideia claustrofóbica e fatalista, que arremessa todos os personagens diante de uma inevitabilidade. Tendo em vista que não há escape para os eventos que se seguirão e que escolhas precisam ser feitas ao longo de toda noite, há uma última chance para que os resquícios de humanidade voltem a ressoar entre os seres. É como se o filme indagasse o espectador: diante do fim, tudo seria alguma diferença?

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Como se modelasse alguns roteiros em um, A Última Noite não entrega com facilidade e/ou inteireza suas sutis colocações sobre completamento em sociedade diante do caos, decisões unilaterais que não deveriam afetar coletivos e os pormenores a respeito de sua organização narrativa. O espectador não é deixado à deriva de roteiro fronteiriço entre a normalidade típica do cinema britânico e a fantasia de catástrofe; há, no lugar disso, um entendimento de tratá-lo sem paternalismo e compreendendo sua estrutura cênica e verbal como suficiente para a boa compreensão do todo. E, em momentos como o de hoje, onde o cinema virou uma máquina de marketing, fugir de trailer e sinopse de produções no geral (e dessa em particular) nos deixa com a certeza de estar fazendo a coisa certa, quando cada sacolejo nos é dado.

A Última Noite
Divulgação

Não se trata de defender A Última Noite como uma obra singular a respeito de comemorações em família ou decisiva enquanto ponto de debate a respeito do livre arbítrio diante do caos. Ainda se trata de um produto de leveza inquestionável, mas que abre precedentes para discussões acerca do universo ao nosso redor, aquele que concerne às nossas experiências particulares com nossos entes. Por baixo dessa regular condição de obra acima da média em temas que, separados, já foram amplamente difundidos, temos sim um filme que tenta criar uma camada de relevância em uma seara já anteriormente utilizada por tantas outras obras e consegue criar na conta de Griffin uma expectativa para voos mais altos, por ter angariado sensibilidade no tratamento com seus personagem em momento de crise, onde o afeto nunca é dispensado.

O elenco à sua disposição corresponde em absoluto ao que é necessário. Tanto o pequeno Griffin volta a demonstrar insuspeito talento e segurança, passando por lugares de conhecimento maduro para a compreensão. Seu personagem é um pêndulo de ponderância em um momento de desespero e tragédia – fica inclusive no entendimento a necessidade desse jogo nos cinemas hoje, ainda vivendo o desespero de milhares de mortes. Keira Knightley não se sai nada mal, assim como Annabelle Wallis (de Maligno) tem um belo personagem cheio de camadas, fazendo um par excepcional com Rufus Jones. Todo o elenco acaba por contribuir para a discussão geral, e sua confluência, sua aparente adesão, só aumenta a ideia por trás de um filme bem mais interessante do que prevíamos.

Um grande momento
Art, James e Sophie

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Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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