Crítica | Festival

Capitu e o Capítulo

Além do sentido que lhe dão

(Capitu e o Capítulo, BRA, 2021)
Nota  
  • Gênero: Drama
  • Direção: Julio Bressane
  • Roteiro: Júlio Bressane, Rosa Dias
  • Elenco: Mariana Ximenes, Enrique Diaz, Vladimir Brichta, Djin Sganzerla, Saulo Rodrigues, Josie Antello, Claudio Mendes
  • Duração: 75 minutos

“Nada se emenda bem nos livros confusos, mas tudo se pode meter nos livros omissos. Eu, quando leio algum desta outra casta, não me aflijo nunca. O que faço, em chegando ao fim, é cerrar os olhos e evocar todas as cousas que não achei nele.”

Dom Casmurro, Cap. LIX

A imagem que serve à palavra, a palavra que enfeita a imagem. Quem conhece o cinema de Júlio Bressane (Educação Sentimental) sabe que essa relação é uma de suas marcas registradas. Ele gosta de percorrer os caminhos da prosa e da poética, de brincar com significados e significantes, embaralhar os sentidos e, com suas ilustrações, permitir interpretações que vão além daquelas que parecem óbvias. O encontro do diretor e o maior escritor brasileiro, Machado de Assis, em uma de suas obras mais conhecidas e cheias de acepções é um prato cheio.

Capitu e o Capítulo é mais do que pensar sobre a dúvida da fidelidade da mulher com os olhos de ressaca, mas sem esquecer dela. O filme se perde na mente do escritor, e nas linhas de “Dom Casmurro” e suas muitas referências. Bentinho ainda fala com o espectador e divaga, preenchendo sua solidão ranzinza com sua cultura e rebuscamento. Em outro tempo, a história ganha corpo e novos contornos, com Bressane preenchendo lacunas e dando a sua interpretação ao que bem entender.

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A estética define períodos e espaços, traçando um paralelo visual com o livro, mas não se importando em ser literal, já que isso não faria sentido nesse caso. Assumindo o passado, o tempo do narrador vem consumido, escuro e com interações que, quase sempre, se limitam a movimentos de câmera. Já as lembranças, vêm solares, iluminadas por uma juventude agora perdida, pela presença de Capitu, pela ansiedade que os eventos trazem.

Como ponto que se espera de autor, mais até do que em Machado, a quase declamação e a afetação dos diálogos extremos é uma realidade e cai bem a Capitu e o Capítulo, pelo menos para aqueles que se interessam por seu cinema. Vladimir Brichta e Enrique Diaz — o Bentinho que se transforma em Casmurro, respectivamente — estão conscientes da corporalidade necessária para compor os personagens e até mesmo a diferença física, na artificialidade do filme, encontra coerência. Circundando esse homem, que são dois em tempos diversos, três outros personagens, a Capitu de Mariana Ximenes; Sancha de Djin Sganzerla, e Ezequiel de Saulo Rodrigues. Além de inserções teatralizadas e corísticas de Claudio Mendes e Josie Antello.

A conexão com a arte do tablado, que a superfície indica aparente pela aproximação textual, é ressignificada pela manipulação de imagens e pela experimentação que fazem de Capitu e o Capítulo e de todo a filmografia de Bressane algo muito particular e inegavelmente cinema. Que o diga todo o devaneio do protagonista quando o ciúme lança sua flecha negra ou mesmo o eventual encontro dos tempos.

Ao aceitar o convite de Casmurro, familiar e conhecido, quem adentra naquele universo sabe e não sabe o que vai encontrar. O mergulho em desvarios imagéticos, onde a imagem é mensagem a ser consumida, admirada, interpretada, decifrada estará ali, mas não será o ponto principal. Bressane têm a palavra e é nela que nos atira depois de anos de entonações, repetições, declamações e tantos outros ões que fazem histórias, banais ou não, ganharem uma conotação de solenidade e importância. E agora, nesse encontro com Machado, está contando uma das mais curiosa de todas. É impossível resistir.

Um grande momento
Com Sancha  

[16º Fest Aruanda do Audiovisual Brasileiro]

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Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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