Crítica | Streaming

A Vigilante

Violências interiores

(A Vigilante, EUA, 2018)
Nota  
  • Gênero: Drama
  • Direção: Sarah Daggar-Nickson
  • Roteiro: Sarah Daggar-Nickson
  • Elenco: Olivia Wilde, Morgan Spector, Kyle Catlett, Tonye Patano, Betsy Aidem, Cheryse Dyllan, C.J. Wilson, Chuck Cooper, Marceline Hugot
  • Duração: 91 minutos

A palavra “modinha” vem sendo utilizada para ridicularizar temas e discussões pertinentes há décadas no mundo, e que, ainda bem, vêm sendo colocadas à mesa hoje, sem necessidade das igualmente depreciativas “ranço” e “mimimi” – quando entenderemos que direitos e deveres devem ser debatidos, e que crimes devem ser punidos? A Vigilante, escrito e dirigido pela estreante Sarah Daggar-Nickson, se vale de pautas urgentes para ambientar sua narrativa, mas não as usa de maneira exploratória – tem algo de urgente na forma como seu enredo é apresentado, ainda que seu desenho acabe por esbarrar em um certo recorte tradicional de filmes pré-fabricados. 

Isso se deve pela sensibilidade com que Sarah lida com um tema que tradicionalmente foi delegado à abordagem masculina, como Nunca Mais de Michael Apted e Dormindo com o Inimigo de Joseph Ruben. Há espaço para o thriller aqui, mas também há espaço para a objetividade feminina ao lidar com o que as aniquila — ser mulher, basicamente. O feminicídio não é um “delírio comunista”, embora muitos possam pensar dessa forma; diariamente mulheres são assassinadas por não obedecer, por não amar, por não cumprir ordens, por ousar ter opinião e tentar registrá-la, agindo contra a legitimidade social do patriarcado. Leram meu “discurso”? Agora esqueçam-no ao adentrar o filme. 

A Vigilante

A diretora não está interessada em verbalizar, mas em penetrar nos poros de Sadie. Foram eles os vilipendiados, os agredidos, e ainda assim segue sendo, ainda que, agora, o sejam por escolha da própria, ao encampar uma busca pessoal por justiça anônima, sem recompensas desbragadas ou reconhecimento heroico. Ela mesmo vítima, converteu-se em agente ativa para reestruturar um status quo que insiste em manter mulheres e crianças em regime de abuso e violência. Mas acima de tudo, é a pele de Sadie que interessa ao filme, brutalizada em processo de recuperação, física e emocional. São seu sangue e suas lágrimas que falarão por ela, um símbolo forte do silenciamento a que se submetem os seres violentados. 

Sarah ainda provoca em uma cena muito capital de A Vigilante, onde percebemos que a busca de Sadie é de desestabilização da violência como um todo, mesmo quando ela é perpetrada por uma mulher. É uma abertura para questões que vão além da violência doméstica sistêmica cometida pelo homem contra a mulher, quando na verdade existe um leque que contempla outras versões de massacre corporal. Nessa cena específica, toda sua força é conseguida sem qualquer grafismo (elemento que o filme não se apoia com frequência mesmo), mas através das reações da protagonista; é o olhar e as reações de Sadie ao que testemunha que pautam o espectador, e como povoará sua imaginação.

É um apanhado de micro sensibilidades as quais realizadores do sexo masculino não se debruçaram anteriormente, como as sutilezas diárias que envolvem a protagonista, ou o modo como cada olhar compõe uma roda de diálogos, suas percepções a cada relato, ou suas inflexões motivacionais para cada história. Tem tratamento digno para cada lágrima derramado, para cada grito represado e posteriormente solto, para cada revide espetacular, porque são anos e anos de silêncio físico e emocional, no qual o cinema contribuiu para a manutenção. Hoje, cineastas como Sarah, Emerald Fennell (de Bela Vingança), Nia DaCosta (A Lenda de Candyman), Karyn Kusama (O Peso do Passado) estão reverberando para reverter um quadro histórico, e apresentar o lado vitimado do feminicídio. 

Infelizmente, A Vigilante se deixa levar pelo clichê narrativo da perseguição final, com plots e reviravoltas estratégicas para que toda ação se complete, com o surgimento de um personagem dispensável para fechar um arco dramático que já estava completo, no quesito psicológico. Ainda que os 5 minutos finais sejam funcionais para compreender o todo, sua função enquanto cinema esvazia o conteúdo apresentado até então. Fica o registro observacional sensível sobre mulheres e crianças desassistidos pela estrutura convencional da sociedade em relação às violências diárias nascidas em casa, mas difundidas pelo machismo estrutural que está em todo lugar. 

Um grande momento
Sadie e os meninos.

Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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