Crítica | TV e VoD

Como Hackear seu Chefe

Em telas que fazem sentido

(Como Hackear seu Chefe, BRA, 2021)
Nota  
  • Gênero: Comédia
  • Direção: Fabrício Bittar
  • Roteiro: Fabrício Bittar, Vinicius Perez
  • Elenco: Victor Lamoglia, Thati Lopes, Ricardo Macchi, Augusto Madeira, Nuno Leal Maia, Fafá Rennó, Esdras Saturnino, Paulinho Serra
  • Duração: 85 minutos

Em tempos de pandemia Covid-19 foi preciso inovar, arrumar novas maneiras de contar histórias. Tendo que levar em consideração o distanciamento social, os produtos audiovisuais foram adaptando-se a novos formatos e as telas que fazem parte do nosso cotidiano — agora, então, mais do que nunca — começaram a ser incorporadas à linguagem. O que antes era experimentação, em filmes como o suspense Buscando… ou o terror Amizade Desfeita, virou quase um subgênero no cinema pós-2020 e se expandiu para outras artes, como teatro, música e dança. Na comédia brasileira, a tendência de interação virtual pôde ser notada nos primeiros tempos de confinamento. Com a popularização das esquetes na Internet, coletivos como o Porta dos Fundos aderiram logo às encenações por videochamada. Essa é a dinâmica de Como Hackear Seu Chefe, filme que chega agora às plataformas digitais.

O diretor Fabrício Bittar, dos equivocadíssimos Como se Tornar o Pior Aluno da Escola e Os Exterminadores do Alem Contra a Loira do Banheiro, está em sua segunda experiência pandêmica já que havia participado com um episódio da Antologia da Pandemia, lançada no Fantaspoa em 2020. Como Hackear Seu Chefe tem seus motivos para tentar não se determinar temporalmente. Porém, o roteiro assinado pelo próprio diretor e por Vinicius Perez não consegue driblar completamente a pandemia, principalmente pelas fugas do improviso, tão comuns da comédia e muitas vezes fica perdido no próprio tempo. 

Seguindo o que é permitido pela atualidade, quase tudo se dá em teleconferência. Num encontro via zoom ou qualquer outro aplicativo do gênero, uma equipe de trabalho se reúne para tratar dos assuntos da empresa. O primeiro contato do público com o grupo é feito por esse dispositivo e a trama é bem básica: é preciso que se elabore uma nova apresentação para investidores. Uma brincadeira dos responsáveis pelo trabalho acaba sendo enviada por engano e é preciso que isso seja revertido antes que o chefe leia o e-mail.

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Como Hackear Seu Chefe

Quem conduz Como Hackear Seu Chefe é Victor, um jovem frustrado pelo fim do relacionamento, por não falar aquilo que quer e por levar uma vida mais ou menos. Quem vive o personagem é Victor Lamoglia, um ator que vem a cada dia confirmando o seu talento. Recém-saído de outra experiência pandêmica, o longa Me Sinto Bem Com Você, ele sustenta bem o filme, mesmo com a interação limitada e, muitas vezes, com seus atributos tendo que ser percebidos em snapchats ou imagens congeladas.

Junto com ele está Thati Lopes, melhor ambientada ao formato e numa atuação que quase chega perto à acomodação, mas com charme garantido graças ao humor evidente da atriz. A apresentação da sua personagem a la Beyoncé, por exemplo, é impagável. Também estão no elenco Paulinho Serra, Augusto Madeira, Esdras Saturnino, Fafá Rennó e Nuno Leal Maia, estes mais prejudicados por um roteiro que poderia aproveitar sua simplicidade, mas quer fazer graça a todo instante e não resiste à pilhéria com qualquer coisa que encontre pela frente. Claro que algumas coisas são engraçadas, como a inserção de um filme dentro do filme estrelado Ricardo Macchi, o eterno Cigano Igor, mas muitas das piadas funcionariam mais como esquetes do que como parte de um filme, outras são simplesmente excessivas e fazem com que algumas existências quase não se justifiquem.

Se o conteúdo tem problemas, a forma é o que mais interessa. O poder entrar na vida do protagonista pelo seu celular e seu computador é o melhor do filme. Seguindo exemplares que já faziam um bom trabalho de transição entre tecnologias, Como Hackear Seu Chefe consegue brincar com essas transferências, estabelecendo um canal “servidor”, e justificando bem acessos a câmeras de segurança e outras imagens que possam vir a ser necessárias. Quando vai além do filmar a solidão pandêmica e usa as telas para filmar um “desastre” tecnológico, Bittar tem um algo a mais a dizer. Um algo que dá valor a seu filme e que traz sentido à linguagem. Para falar de um universo, nada melhor do que estar imerso nele e é isso que está em tela, esse é o convite que foi feito ao espectador assim que o filme começou. Faltou um roteiro mais controlado? Com certeza. Mas algo aí merece muita atenção.

Um grande momento
Sorrisinho

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Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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