Crítica | Streaming

Abaixo de Zero

Um igual com diferenças

(Bajocero, ESP, 2021)
Nota  
  • Gênero: Ação
  • Direção: Lluís Quílez
  • Roteiro: Fernando Navarro, Lluís Quílez
  • Elenco: Javier Gutiérrez, Karra Elejalde, Luis Callejo, Andrés Gertrúdix, Isak Férriz, Édgar Vittorino, Miquel Gelabert, Florin Opritescu, Àlex Monner, Patrick Criado
  • Duração: 106 minutos

Com um catálogo que privilegia a produção comercial espanhola há um tempo, a plataforma de streaming Netflix trouxe ao Brasil alguns dos últimos sucessos do gênero policial produzidos pelo país, como a trilogia de Baztan, cujo direito de distribuição das sequências foi adquirido logo depois da entrada do primeiro filme, O Guardião Invisível, na plataforma, ou O Silêncio da Cidade Branca, com Belén Rueda, e o recém-estreado Abaixo de Zero, não só distribuído, mas também produzido pela Netflix. Ainda que bebendo muito influenciados pelo cinema estadunidense, os espanhóis souberam incorporar elementos a seus filmes que transformam a experiência.

Abaixo de Zero não deixa de ser um exemplar tradicional de filmes de ação policial, um daqueles que a gente vê com frequência. Mas o diretor Lluís Quílez, do ótimo curta pós-apocalíptico Graffiti, consegue encontrar originalidade justamente numa construção silenciosa da tensão. Partindo da indeterminação do começo explícito e da posterior apresentação básica de seus protagonistas, ele vai para o inesperado. Se o roteiro é básico na justificação de atos, os eventos se concatenam bem.

Abaixo de Zero

O filme recorre sem ofender a elementos que facilitam o direcionamento do espectador, como a trilha sonora, mesmo que por vezes se atrapalhe. Por um tempo, Quílez acerta ao evitar o uso nos picos climáticos e ao optar pelo preenchimento de espaços vazios, como que numa canção em que metais não podem se sobrepor aos vocais, mas a escolha melódica nem sempre casa bem. Ainda que haja o descompasso, esse é o tipo de sutileza elegante que pouco ou quase nunca se vê no gênero e que marca a diferença entre os exemplares estrangeiros e os estadunidenses.

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Com muitos personagens em cenas, a marcação de cada um deles em Abaixo de Zero é superficial e, como em muitos exemplares do gênero, nem sempre há muito material a ser trabalhado por seus atores, o que demanda um esforço extra de Javier Gutierrez, de Pecados Antigos, Longas Sombras e A Casa, e de Karra Elejalde, de Mientras dure la guerra. O roteiro assinado pelo próprio diretor e por Fernando Navarro tem os seus momentos, principalmente por insinuar linhas possíveis a seus personagens, dando margem a uma incerteza generalizada, mas além do que cria dentro do caminhão, não se esforça muito na elaboração da trama de vingança e nem no modo como a explica a seguir.

Abaixo de Zero

Graficamente, o diretor elabora bem as alternativas para o espaço limitado e o exterior gelado. Isaac Vila — diretor de fotografia que estava com Quílez em Grafitte e fotografou títulos como O Silêncio do Pântano e Influência — alterna filtros e com eles cria ambientes, joga com planos, elementos e luz, gerando sensações. O momento mais tenso do filme, por exemplo, tem ótimos takes (e aqui tem que se falar também do desenho de som). Pena que seja a virada para o mais banal.

Com a solução gráfica apressada e facilitada e o final melancólico, Abaixo de Zero teve todas as suas diferenças, foi original até onde pode, mas se encontrou com o padrãzão do gênero. O caminho percorrido até ali foi digno e, mais do que isso, aquilo que precisava fazer foi feito, prender a atenção de seus espectadores e entreter, Isso ninguém vai poder dizer que ele não fez.

Um grande momento
Voltando com a chave

Ver “Abaixo de Zero” na Netflix

Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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