Crítica | Festival

Feast

A substituição do corpo

(Feast, HOL, 2021)
Nota  
  • Gênero: Drama
  • Direção: Tim Leyendekker
  • Roteiro: Tim Leyendekker, Gerardjan Rijnders
  • Elenco: Trudi Klever, Eelco Smits, Koen Van Kaam, Kuno Bakker, Oscar Van Den Boogaard, Sanne den Hartogh
  • Duração: 75 minutos

Em meados da primeira década do novo século, um escândalo varreu a Holanda: três homens foram acusados de drogar outros com a intenção de disseminar o vírus HIV, do qual eram portadores. Em Feast, estreia na direção do artista visual Tim Leyendekker, não é realizada uma adaptação direta desse caso, mas uma reflexão sobre as atitudes desses homens em registro que mistura ficção, documentário e ensaio, com diferentes resultados qualitativos para sua abordagem em uma discussão que infelizmente não envelheceu, em um projeto que abrange muitas camadas narrativas para seu entendimento.

Bebendo em fontes de experimentos particulares já testados por outros artistas, Leyendekker apresenta um dispositivo dos mais interessantes: três atores representam um diálogo entre esses criminosos encarcerados em uma espécie de aquário de observação como aqueles de delegacias policiais. Do lado de fora, três especialistas ouvem e analisam o diálogo, tecendo comentários que amarram filosofia e existencialismo, além do ato em si, que nunca é explicitado ou excessivamente tematizado, criando um vínculo entre os dois grupos, principalmente porque os atores se repetem, dentro e fora do aquário.

Feast 2021

Esse espelhamento de repetir os corpos dos algozes em quem os observa, estuda e rememora seus feitos intensifica o debate porque unifica o olhar, coadunando experiências tão díspares. São comentários que relacionam amor e sexo, culpabilidade e estudo antropológico sobre livre arbítrio, abrindo um painel muito sofisticado tanto imagética quanto filosoficamente, através do ato de replicar esses rostos em dois segmentos. Para isso, a experiência anterior artística do diretor é um elemento central para chegar ao resultado exposto, onde cada personagem parece se relacionar com sua consciência recôndita.

Ao completar esse quadro, o filme apresenta um quadro seguinte igualmente potente, onde uma voz sem rosto, observada através do detalhamento do seu corpo, rosto, boca, revela mais do que a própria cara. Sua disposição ao narrar eventos incomuns relacionados a festas no estilo “clube do carimbo” (espécie de roleta russa onde um convidado saudável participa de uma orgia com inúmeros infectados com HIV) deixa clara a normalidade com que essa disseminação é tratada, com suas consequências minimizadas e essas decisões apartadas de uma análise psicológica mais exata. Não há rosto, não há expressão, não há importância, e muito provavelmente não há amor próprio.

Feast 2021

A partir desse momento, infelizmente o filme toma rumos mais tradicionais de abordagens, com uma cientistas recolhendo análises materiais de plantas e elaborando um pensamento científico a respeito da transmissão de vírus e uma tentativa de evolução da medicina sobre os danos causados pelo HIV, além de uma entrevista com um dos reais nomes por trás do trio de “carimbadores” holandeses, mantido regularmente na penumbra e protegido por uma escuridão digital no seu rosto, ainda que sua voz denote tranquilidade no relato. Tirando o interesse social pelo que é dito, cinematograficamente nada é apresentado que dê continuidade ao interesse do longa em sua segunda metade.

Fica o registro artístico de Leyendekker em uma tentativa de criar cinema a partir de um evento verídico, tratado como um experimento social uma instalação de câmara bem sucedida, e que aos poucos dá vazão a uma abordagem mais tradicional de captação de imagens, ainda que tente ainda invenção linguística. Feast é um projeto de reverberação narrativa que capta em tentativas múltiplas um recorte verbal sobre atos absolutamente corpóreos – o corpo humano, suas pulsões e sua inclinação, sendo representado em cena exclusivamente pela voz, com o apagamento do ato sexual.

Um grande momento
Relato sem rosto

[International Film Festival Rotterdam 2021]

Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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