Crítica | Festival

Black Medusa

Jovem mulher caminha pela noite

(Black Medusa, TUN, 2021)

  • Gênero: Suspense
  • Direção: ismaël, Youssef Chebbi
  • Roteiro: ismaël, Youssef Chebbi
  • Elenco: Nour Hajri
  • Duração: 95 minutos
  • Nota:

Dirigido por ismaël e Youssef Chebbi, Black Medusa é um experimento de contemplação diante da violência sofrida pela mulher. Com um jogo antônimo, onde Chebbi registra a escalada de ferocidade em uma série de crimes cometidos por uma jovem contra homens que só querem usá-la e descartá-la, o filme nos coloca como testemunhas oculares de atos hediondos, reforçados por um espectro machista que influencia o olhar. “e se, ao contrário do assédio e do extermínio contínuo perpetrados por homens a mulheres, víssemos um quadro oposto?”, e a partir daí elaborar uma discussão sobre a violência sistêmica.

Com uma elaboração imagética que remete ao noir que o austríaco Fritz Lang perseguiu em sua carreira, com os tons de preto e branco responsáveis por sublinhar nos personagens o que os roteiros deixavam nas entrelinhas, Aqui, ainda mais que nos tradicionais filmes policiais dos anos 40 e 50, somos convidados a acompanhar as desventuras de uma jovem mulher, que verbaliza pouco porém não se furta em agir. Ela segue nessas sombras propostas pela produção em busca do próximo movimento, enquanto esbarra nos acasos que a obrigam a refazer sua rota, e empregar cada vez mais ênfase em seus ataques.

Black Medusa

Os passos da protagonista pela cidade vazia nos remete a uma produção recente, Garota Sombria Caminha pela Noite, onde a postura de suas intérpretes delimitam as trajetórias de seus filmes, o tanto que eles denunciam e sua mensagem a reverberar dentro e fora dos respectivos longas. Aqui porém não há o elemento fantástico a acrescentar camadas metafóricas a um painel muito concreto – Black Medusa abre e se encerra com uma parábola de um homem caído em um buraco, e esse é o elemento de artifício que o filme apresenta em sua discussão formal; todo o resto é uma construção apenas do campo do possível.

O roteiro também escrito por ismaël e Youssef Chebbi se vale de elipses na produção, e isso é um dos acertos do cômputo final. Como em um processo de embriaguez ou de ingestão de substâncias alucinógenas, o filme se vale desses lapsos de tempo para não preencher nossa memória, deixando-a livre para elaborar como a protagonista aborda ou concretiza seus ataques. A partir do encontro de uma faca milenar na casa de uma de suas vítimas, e posteriormente suas ações quando a empunha, suas abordagens se tornam um pouco mais claras, afastando seus propósitos de meros castigos a assassinatos nada elaborados, dando sua conotação sem premeditação.

Black Medusa

Além desse encontro com o artefato, também muda uma chave na protagonista sua gradativa união com outra personagem feminina, que chegará ao ápice quando ela se ferir e precisar de ajuda, revelando assim o lado obscuro da personagem para além dos olhos do público. que vai deflagrar um processo persecutório na mesma, acentuando um suspense na narrativa que até então não tinha muita presença. Black Medusa tem essa característica, sua moldura sugere algo que não é absorvido pela montagem, até o momento certo, quando o filme libera ao mesmo tempo inúmeras chaves de entendimento de gênero que se conflitam, e rearranjam a produção.

A reboque de um acertado movimento hollywoodiano que pede equiparação de oportunidades na frente e atrás das telas, Black Medusa, através da exploração de sua personagem mitológica – aquela que, na Grécia, transformava em pedra aqueles que a fitassem – estabelece uma nova configuração para o desejo feminino e seu direito à voz, ao poder decisório de seus atos. A protagonista do filme não reivindica a barbárie, mas a primazia de poder tomar pra si um lugar que é dado aos homens pelo simples fato de nascerem nesse sexo, e a mulheres não – ela é dona de seu caminho, e o abrirá independente de quem se colocar à sua frente.

Um grande momento
O encontro com a faca

[International Film Festival Rotterdam 2021]

Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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