Crítica | Festival

O Cão Que Não Se Cala

Os absurdos do cotidiano

(El perro que no calla, ARG, 2021)
Nota  
  • Gênero: Drama
  • Direção: Ana Katz
  • Roteiro: Gonzalo Delgado, Ana Katz
  • Elenco: Daniel Katz, Valeria Lois, Mirella Pascual, Carlos Portaluppi, Julieta Zylberberg
  • Duração: 73 minutos

Um dia normal. Um cachorro observa seu dono podar o cipreste. A cena faz o espectador se preparar em seu lugar de observador de um cotidiano que vai se construindo lenta e silenciosamente, com imagens banais do dia a dia. Até que a romaria de vizinhos começa a bater na porta de Sebastian, o do cipreste. A queixa emocionada e condoída no portão é a de que o cachorro, aquele que observava, não podia mais ficar sozinho pois, sofrendo, não parava de fazer barulho. É assim que O Cão Que Não Se Cala (El perro que no calla) está está sempre mudando o caminho do espectador — e do protagonista.

Somos indivíduos livres e nossa liberdade nos condena a tomarmos decisões durante toda a nossa vida. Não existem valores ou regras eternas, a partir das quais podemos no guiar. E isto torna mais importantes nossas decisões, nossas escolhas.

Jean Paul Sartre
O Cão Que Não Se Cala
Cecilia Barroso | Cenas de Cinema

Com muita habilidade, Ana Katz, de Minha Amiga do Parque e Sueño Florianópolis, baseia parte de suas motivações no extracampo. Aquilo que se fala nunca chega como uma verbalização de algo já visto. Pelo contrário, é a surpresa que vem para desacomodar quem assiste ao filme de um rumo que parecia estabelecido. Assim é a vida e, assim, personificando em Seba, a diretora fala de escolhas, rupturas e eventualidades. Fala também de acomodação, trabalho, modo de vida, gerações e outras questões bem mais sociais.

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O Cão Que Não Se Cala segue a jornada de Seba, dos vizinhos à impossibilidade de levar cachorros para o escritório — em uma reunião com o RH deliciosa de se acompanhar — e a vida no campo, da paixão que vira casamento e família à contaminação que proíbe as pessoas de viverem suas vidas normalmente, e o presente. O projeto levou anos para ser concluído e quem vive esse protagonista que não bem não para quieto é o irmão da diretora, Daniel Katz. 

O Cão Que Não Se Cala
Cecilia Barroso | Cenas de Cinema

O resultado é uma interessante colagem de situações, cada uma com sua própria configuração, já que são observações destacadas por seus diretores de fotografia, com visões próprias para as fases desse caminho. E se todos impressionam, há uma que ganha especial atenção do público não só por toda atenção que recebe de quem a filma, mas pela similaridade com tudo o que está se passando no mundo, embora a situação seja completamente absurda: um meteoro cai na terra e libera um gás tóxico que envenena o ar e fica em suspensão a pouco mais de um metro de distância do solo, obrigando as pessoas a rastejarem no chão. Só podem andar de pé as pessoas que têm um capacete especial.

Em tempos de Covid-19, ver qualquer coisa que relacione com algum tipo de situação estapafúrdia que limite a movimentação e mude hábitos cotidianos, ainda que descolado da nossa realidade, acaba remetendo de alguma forma àquilo que passamos. E se a identificação está no surreal, está também no trivial, no não encontrar o seu lugar, na busca por um caminho, espaço ou identidade.

O Cão Que Não Se Cala é uma daquelas experiências surpreendentes, que se transformam em algo muito maior do que aquilo que esperávamos no primeiro contato. Um filme elaborado,  mas que se apresenta de forma simples para fala do que é estar aqui nesse mundo e de como é passar pela vida, com humor, profundidade e muita habilidade.

Um grande momento
A elipse da paixão

[Sundance Film Festival 2021]

Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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