Crítica | Cinema

After – Depois do Desencontro

omantizando o relacionamento tóxico como uma Malhação da gringa

(After We Fell, EUA, 2021)
Nota  
  • Gênero: Drama
  • Direção: Castille Landon
  • Roteiro: Sharon Soboil
  • Elenco: Josephine Langford , Hero Fiennes Tiffin, Louise Lombard, Chance Perdomo, Rob Estes, Arielle Kebbel, Stephen Moyer, Mira Sorvino, Frances Turner, Kiana Madeira, Carter Jenkins
  • Duração: 99 minutos

Pobre coitadas que inspiram desatinos como After, as escritoras Jane Austen e Emily Bronte certamente ficariam ofendidíssimas com a suposta homenagem em forma de paixão tempestuosa que invade o casal ventral do livro e amante das obras delas, Hardlin e Tessa. O mote da saga escrita por Anna Todd (que começou como uma fanfic do Harry Styles) é o encontro da garota ingênua porém sagaz com o cara misterioso, arrogante e descontrolado – ele tem um lado “dark” sabe, que só o torna mais atraente.

O que nem Anna muito menos todas as roteiristas que já adaptaram seus livros para o cinema, como Sharon Soboil que responde por esse After – Depois do Desencontro é que as autoras britânicas não estavam sobremaneira retratando o príncipe encantado em Darcy ou Heathcliff. Primeiro, porque este não existe; e segundo e mais importante: esses homens alquebrados são suportes (ainda que consistentes sim mas não passam disso) para que as heroínas dos romances possam se transformar e evoluir, seja como uma presença marcante que sopra como o vento assombrado em Ponden Hall ou como a inspiração virtuosa que torna um homem vaidoso alguém melhor, um pouco mais ciente dos seus privilégios.

After - Depois do Desencontro
Foto: Divulgação

E por mais cringe que a sutileza seja para a geração jovem contemporânea ela faz uma falta danada em After Depois do Desencontro, um desembestado carro sem freio feito de hormônios em ebulição e barracos, que narrativamente se equipara a algumas fãs pirões temporadas da novelinha Malhação com um estética de videoclipes do Calvin Harris e Shawn Mendes – ou seja, um casal branco e padrão dando amassos em cenários bucólicos ou numa cama com lençóis de fio egípicios com um brilho invadindo a câmera, uma nesga de um raio solar que emoldura os rostos de Tessa e Hardlin a cada vez que dão um beijo.

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“Amor é para os tolos”

A química está lá entre Josephine Langford (que tem uma irmã também atriz só que mais famosa, a Katherine Langford) e o herdeiro do Clã Fiennes, Hero Fiennes Tiffin, os intérpretes do casal tóxico. O que deve ter de fandom na internet deles dois, shipando inclusive como casal real não é brincadeira mas como atores em uma série de filmes eles tem muito pouco a fazer em termos de exercitar a atuação e caracterizar seus papéis. A situação é a seguinte nesse terceiro filme de After ou “50 Tons de Cinza para teens” que ao menos, vá lá, dá uma ajudinha no sentido de despertar interesse pelos livros sagrados da literatura el língua inglesa: Tessa recebeu uma proposta irrecusável para ir trabalhar na editora Vance em Seattle ao passo que o mendigo aleatório do filme anterior acabou revelando-se como o seu sumido pai. Agora a loirinha tem que cuidar de dois marmanjos pois Hardlin continua com seus rompantes e a bagunça emocional não é pouca.

After - Depois do Desencontro
Foto: Divulgação

A vida depois do encontro do casal, que transcorre de maneira menos ofensiva (tanto para quem se chateia com a romantização de relações abusivas como para quem gosta de filmes bem feitos) no After I, enquanto que descamba para a breguice no After II ou Depois da Verdade mas que aqui com o capítulo 3, After – Depois do Desencontro, significativamente alcança um novo patamar de fundo do poço. Dirigido por Castille London – que também já dirigiu Depois do Felizes Juntos, a parte final da franquia que deve sair no ano que vem, vem a ser o segundo After dirigido por uma cineasta após Jenny Gage, responsável pelo After I. O bololô que London precisa dar conta de resolver envolve o casal iôiô decidindo se gostam mais da ideia de ficar juntos ou longe (A Barraca do Beijo 3 ao menos teve a vergonha na cara de mostrar às meninas que não é preciso de anular por causa de boy nenhum) e ainda uma subtrama com o pai e a mãe de Hardin e o chefe de Tessa, que são amigos de longa data mas cuja história nunca foi se dado o trabalho de explicar. Rompantes vão e vem, os pombinhos são paparicados por todos que os cercam e os acham incríveis e não conseguem enxergar nada de errado ali. E aí acaba que o grande spoiler, aquela que seria a grande revelação da saga fica com um ar de ué mas isso estava tão na cara”.

O menino Fiennes ainda precisa estudar muito para conseguir ser o novo Robert Pattinson ou mesmo fazer jus aos tios Joseph e Ralph porque suas caras e bocas quando está de coração partido são absolutamente irritantes e não tem sotaque inglês que segure charme sem substância. Já a Langford caçula até tenta mas o arco de Tessa e o material criado não dão muito coisa para trabalhar. A ambição maior da devoradora de livros é der paga para ler mais livros e transar com o bad boy todas as horas do dia.

Um grande momento
“Sempre achei que fosse Darcy mas na verdade você é a Jane Austen”

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Lorenna Montenegro

Lorenna Montenegro é crítica de cinema, roteirista, jornalista cultural e produtora de conteúdo. É uma Elvira, o Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema e membro da Associação de Críticos de Cinema do Pará (ACCPA). Cursou Produção Audiovisual e ministra oficinas e cursos sobre crítica, história e estética do cinema.
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