Crítica | Cinema

Shang-Chi e a Lenda dos Dez Anéis

Anéis que desunem

(Shang-Chi and the Legend of the Ten Rings, EUA, AUS, 2021)
Nota  
  • Gênero: Ação
  • Direção: Destin Daniel Cretton
  • Roteiro: Dave Callaham, Destin Daniel Cretton, Andrew Lanham
  • Elenco: Simu Liu, Tony Leung, Awkwafina, Meng'er Zhang, Fala Chen, Michelle Yeoh, Yuen Wah, Florian Munteanu, Andy Le
  • Duração: 132 minutos

Talvez pela primeira vez a Marvel esteja contando a história de dois losers bem satisfeitos com sua colocação no mundo. Os heróis que foram povoando o universo até então eram pessoas muito ricas, ou muito poderosas, ou muito alienígenas, e quando as conhecíamos elas já tinham real noção de sua posição no mundo, mesmo em suas aventuras de origem. Aqui em Shang-Chi e a Lenda dos Dez Anéis, esse conceito se retorce para nos apresentar o início da fase 4 das aventuras da Marvel Studios, o conglomerado de maior poderio monetário do cinema hoje – hoje ou há 15 anos, ao menos. Quando eles foram “mal de bilheteria”, fizeram nos EUA quase 200 milhões de dólares (Doutor Estranho); quando foram bem, o mundo parou para vê-los, e isso aconteceu muitas e muitas vezes. Esse mocinho aqui, modestamente — de compleição e de alcance — tem a missão de salvá-los do maior vilão/concorrente global, a pandemia.

Não foi planejado assim, lógico. O filme estava pronto para ser humildemente lançado há um ano atrás, quando o globo terrestre passou para uma tragédia que só Thanos seria capaz de causar, e agora cabe a Destin Daniel Cretton a missão de, junto à Cate Shortland (Viúva Negra), mostrar que o estúdio pode parar a retração de vez e alcançar o topo do mundo, como eles se acostumaram. O diretor é o mesmo que nos apresentou Brie Larson em Short Term 12, e que desde então amargou a pior das combinações – filmes ruins e fracassados. Com a ajuda do pó mágico distribuído por Kevin Faige e cia, o líder da empreitada entrega seu melhor filme desde que saiu do universo indie explorando o que suas matizes tem de melhor, a humanidade inerente a um roteiro preocupado com um pouco mais do que explodir e destruir. Em muitos de seus produtos, a Marvel não conseguiu a sutileza que consegue aqui, ao acessar o íntimo de seus personagens.

Shang-Chi e a Lenda dos Dez Anéis
Cecilia Barroso | Cenas de Cinema © Marvel Studios, Disney Entertainment

Parece piegas pacas, mas também é a primeira vez que está em jogo, de ambos os lados, o amor. É por ele que lutam o grande (e recém entronado) herói e um vilão que não se imaginava como tal – talvez aí o filme até se assemelhe de uma narrativa cara ao Corpo Fechado de M. Night Shyamalan. Cada um em cena está em busca de descobrir suas funções em um mundo que lhes deu muito mais derrotas emocionais que vitórias morais, seja há mil anos ou há vinte e cinco. Sua meta é reaver o sentimento e a família que foram perdidos, e para tal arriscar justamente o que se têm hoje. Um diálogo de Shang-Chi e a Lenda dos Dez Anéis expõe uma fragilidade da educação parental: o amor e o excesso de zelo podem ambicionar criar o mal, ao invés do bem mesmo que acidentalmente? O foco do herói é de seu nemesis é o amor de uma mesma pessoa que já não está mais entre nós, e a ilusão de reavê-lo é o cume de sua derrocada.

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Esteticamente, o filme é bem acabado, tem efeitos 3D que potencializam a profundidade de campo da mise-en-scene, dando ao material um acabamento menos poluído que a marca costuma ambicionar – a recordação da bagunça do primeiro Vingadores deixa óbvia a evolução da marca, aqui em estágio superior. O filme cria um universo de fácil leitura visual e narrativa, tanto ao público experimentado quanto ao leigo que, por ventura, caia dentro do cinema para se divertir. São cores vibrantes e uma atmosfera fantástica que não se perde na sua própria intenção, porque caminham juntas a apresentação da mesma e a transição de seus tipos para um lugar que se expande em sua proposta. As criaturas originárias da fantasia são rapidamente assimiladas pelo espectador porque são, a um só tempo, carismáticas e conceitualmente bem traduzidas e visualmente luxuosas, especificamente os seres que chegam na metade do segundo tempo pra tentar rivalizar com Godzilla vs Kong no posto de embate do ano.

Shang-chi e a Lenda dos Dez Anéis
Cecilia Barroso | Cenas de Cinema © Marvel Studios, Disney Entertainment

O casal de protagonistas formado por Sami Liu e Awkwafina é promissor, instigante, empolgante e repleto de carisma. É fácil torcer por duas pessoas que parecem tão à vontade tanto em um café da manhã tradicionalmente familiar oriental quanto em uma fuga espetacular no paredão de vidro de um prédio com uma legião de ameaças em sua cola; eles dão credibilidade a um filme cujos personagens precisavam de uma aceitação popular, se tratando de meros desconhecidos para quem não é versado no universo HQ. Os ajudam a experiência dos fabulosos Tony Leung e Michelle Yeoh, absolutamente formidáveis em seus lugares de pilares de uma trama jovem para um público sedento por ação; é a união perfeita da estabilidade com a novidade, captada pela seleção do casting. Já o que faz Ben Kingsley em cena… bom, dá pra dizer sim que é uma bola fora alguém como ele a serviço do absoluto nada.

Não se trata de um roteiro acima da média para o universo Marvel. Mesmo tendo meras 2 h (os filmes deles, todos sabem, são cada vez maiores), Shang-Chi e a Lenda dos Dez Anéis tenta condensar muitas inflexões de personagens, às vezes contraditórias, num mesmo espaço; o próprio herói título parece tão à vontade em suas duas versões, e nunca ficamos satisfeitos com o resultado de suas escolhas, que parecem apontar em direções diferentes. Mas é um material tão rico em suas discussões, tão bem acabado cinematográficamente, o público fica tão ávido para acompanhar onde estarão seus dois personagens principais nos próximos anos, que ficamos tentados a não questionar porque um ocidental foi convidado a comandar uma produção tão oriental, inclusive que é muito dialogada em mandarim. Coisas de Hollywood, que obviamente ainda precisa mudar.

Um grande momento
O ônibus partido

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Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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