Crítica | Streaming

Agente Oculto

As delícias de ser cretino

(The Gray Man, TCH, EUA, 2022)
Nota  
  • Gênero: Ação
  • Direção: Anthony Russo, Joe Russo
  • Elenco: Ryan Gosling, Chris Evans, Ana de Armas, Jessica Henwick, Regé-Jean Page, Billy Bob Thornton, Julia Butters, Alfre Woodard, Dhanush, Wagner Moura
  • Duração: 122 minutos

Lá no último clímax do filme (ou seria o penúltimo?), os irmãos Joe e Anthony Russo colocam seus protagonistas pra brigar ao nascer do sol. Você está lendo e pensando: e daí? Bom, pense em uma cena de luta coreografada, que provavelmente demora dias para ser gravada, para que toda a sequência tenha edição perfeita. Agora imagina isso tudo feito em condições de luminosidade detalhada, onde nada pode sair do lugar onde o risco do erro de continuidade é ainda mais fatal. Antes que alguém fale “hoje em dia tudo é conseguido na pós-produção, onde a montanha do dinheiro paga os melhores efeitos especiais”, pense de novo: porque se colocar em situação tão adversa para fazer uma cena que poderia ter o mesmo efeito em qualquer outra condição? Aí sim, se você responder “porque eles querem mostrar que podem”, você está certo. Em Agente Oculto, superestreia do mês da Netflix e uma das maiores apostas do streaming em 2022, a duplinha quer mostrar que pode tudo. 

E é uma das coisas mais deliciosas a sensação de que se tem todo o dinheiro do mundo à sua disposição para conseguir encampar uma história das mais reles, com a reunião dos diálogos mais cretinos recentemente escritos, e ainda assim prover diversão das mais verdadeiras. É como se os Russo tivessem treinado bastante fazendo aqueles filmes de boneco da Marvel, e ainda que fossem das coisas mais próximas com personalidade que o estúdio consegue entregar (esqueçam Os Vingadores: Ultimato; jamais esqueçam Capitão América: O Soldado Invernal), para sair de lá e então mostrar ao que vieram. E antes de mais nada, não… ninguém está tentando ganhar Oscar aqui, ou ir para Cannes – mas definitivamente tem bastante Cinema acontecendo, como já deixei claro no parágrafo acima. 

Sujeito Oculto (2022)
Paul Abell/Netflix

Primeiro porque os diretores têm clara preocupação com a imagem. Ok, nem tanto com o plano, com a textura que conseguem captar em cada enquadramento – ainda que sim, isso exista em grau não tão evidente. Mas seu rigor no trabalho compreende outros caminhos até montar suas sequências, em como dispor cada um de seus elementos cênicos, em como constituir a criação das cores que estão iluminando cada ator em cada flagrante de câmera neles. É um trabalho definitivamente atraente sob qualquer ponto de vista, desde a sequência 1, a do réveillon em Bangkok. Ali, já somos enlevados pela atmosfera proposta, que tem ápices constantes, mas que não exaspera o espectador com pirotecnia em excesso; temos certeza que isso irá acontecer, mas eles nos surpreendem com contenção. Ou algo que o valha, se tratando de uma produção desse calibre e dessa ambição. 

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Uma das surpresas, no entanto, é que atrelado a esse trabalho de direção até rebuscado, frenético e que não deixa nada a dever aos melhores momentos de Missão: Impossível, o que Agente Oculto quer contar é pífio, o filme sabe disso e está muito feliz com isso. Sim, a inspiração das aventuras de Jason Bourne não poderiam ser mais explícitas, mas isso já é oriundo dos ONZE livros escritos por Mark Greaney sobre o agente secreto da CIA Court Gentry, ou Sierra Six. Não há, ao contrário do que se faz no quadro, qualquer tentativa de tornar o que é muito simples em algo mais elevado; o filme se basta dessa forma, e isso não significa necessariamente que não é um trabalho levado a sério. O filme olha para o escapismo, se envaidece de fazer o que está fazendo, e não pretende colocar Shakespeare na boca dos atores para provar a dignidade do que está sendo contado. 

Sujeito Oculto
Paul Abell/Netflix

Essa qualidade parece que vem sendo aperfeiçoada pelos irmãos, que produziram o belo Resgate também para a Netflix baseado em graphic novel deles, e agora se aventuram nessa jornada particular para provar um ponto. Sua ideia de mostrar o tanto quanto podem ousar na criação de espetáculo para as massas, sem pré julgar seu trabalho ou diminuir sua liberdade criativa, acaba por fornecer a algo como Agente Oculto, que será uma clara franquia – e que bom que será – um caminho diferenciado dentro do cinema blockbuster de hoje, repleto de efeitos especiais, mas livre de super-heróis. Ainda que o que personagens como Ethan Hunt e Six realizem coisas sobre humanas, a graça dessas produções é sentir o espaço físico onde a ação acontece e ter contato com as perdas que os personagens sofrem pelo caminho, que não podem ser resolvidas com um estalar de dedos ao contrário. 

E o elenco embarca de maneira tão natural no que está acontecendo, pronunciando falas absurdas com um misto de charme e naturalidade, que rapidamente absorvemos tais tiques do filme como sinais de sua diferenciação. Agente Oculto de forma alguma foi pensado em mudar a vida de qualquer envolvido – a não ser, claro, nos bolsos dos mesmos -, mas isso não pode ser uma desculpa para entregar um produto de quinta categoria, como foi Alerta Vermelho, por exemplo. O filme acaba e temos vontade imediata de começar uma nova sessão, ou de xingar a Netflix a plenos pulmões por não colocar sessões do título nos cinemas, o lugar acertado para acomodar o gigantismo visto aqui, cada dólar dos 200 milhões gastos sendo mostrados, em trabalho conjunto para entregar um entretenimento de qualidade inquestionável. 

Um grande momento
Vários, mas fico com o avião – e a tristeza de não ter visto essa beleza de sequência no telão.

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Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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