- Gênero: Comédia
- Direção: Pedro Antônio
- Roteiro: Fil BRaz, Paulo Gustavo, Marcus Majella, Renato Fagundes, João Paulo Horta
- Elenco: Marcus Majella, Pedroca Monteiro, Dira Paes, Chico Diaz, Barbara Reis, Dudu Azevedo, Big Jaum, Saulo Arcoverde, Malu Valle, Juh Amaral
- Duração: 100 minutos
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As primeiras vezes que ouvi sobre Agentes Muito Especiais saíram todas de falas de Paulo Gustavo, seu mentor original. A ideia era de que ele e Marcus Majella, seu grande amigo, tinham direito, enquanto homossexuais, a uma série de ação que fosse uma espécie de paródia dos filmes policiais brasileiros e americanos. A ideia nunca saiu do papel pelas mãos de Gustavo, com toda a tragédia que se abateu sobre ele. Anos depois, Majella e Pedroca Monteiro enfim estreiam a versão dessa ideia original e tentam manter a chama que Gustavo construiu no cinema: comédia rasgada, piadas ressignificadas a respeito da sexualidade de seus protagonistas, e uma base de afeto que era sua marca registrada. O resultado estreia nos cinemas essa semana com o maior circuito previsto, e a necessidade de encontrar um público que ainda precisa de estímulos extra para sair de casa.
Dirigido por Pedro Antônio, Majella já adquiriu intimidade com ele tanto no cinema (Um Tio Quase Perfeito e Os Salafrários) quanto na tv (220 Volts e Ferdinando Show), e o cineasta tem ao menos dois filmes dignos de nota: Altas Expectativas e Tô Ryca!. Em Agentes Muito Especiais, Antônio lida com um ritmo do qual precisaria ser mais experimentado para se sobressair; muitas vezes a um só tempo, o filme encara de frente a comédia besteirol e o ritmo ágil do thriller policial. Após a cena mais inspirada (e hilariante) do filme, a sequência seguinte ainda se move para uma onda emotiva envolvendo o passado dos protagonistas. A verdade é que cineastas com décadas de estrada não se sairiam tão bem assim, tendo de equilibrar gêneros e impostações de ritmo que não pedem licença um ao outro.
Dentro da seara do cinema popular, Antônio ocupa um lugar valioso no que suas capacidades entregam. Ele costuma ser esse profissional que intersecciona gêneros com sucesso, abrindo espaço não apenas para reflexões, como para um olhar menos viciado na cinematografia nacional. Agentes Muito Especiais, ainda que consiga fazer esse movimento a partir de determinado momento, não é feliz em suas escolhas desde o início. Existe uma tentativa de explicitar alguma modernidade de edição, um ritmo de videoclipe que não é inteiramente encorpado, provocando um certo engessamento na meia hora inicial. É como se o filme, que não é exatamente um programa radicalmente original, construísse seus alicerces de maneira preguiçosa, deixando essa estrutura explícita justamente por não acreditar nesse formato inicial.
Mas tão logo o fôlego adentra na produção, acontece como mágica, e o ponto de entrada dessa mutação se resolve quando a dupla de policiais Jeff e Johnny se infiltram em um presídio, para tentar se aproximar de uma quadrilha de traficantes internacionais. É quando todos os elementos encontram ressonância, e Agentes Muito Secretos consegue avançar coletivamente, tanto diminuindo a interferência dos recortes de imagens, quanto ganhando fôlego nas piadas, e também tentando agregar dramaturgia aos seus personagens principais, que movem a narrativa. O elenco coadjuvante também participa desse coletivo qualitativo, incluindo o ótimo Saulo Arcoverde transmitindo sutileza em meio ao seu grupo agudo. Paralelo a eles, um papel de sonho é dado a Dira Paes, especificamente, porque oferece à uma de nossas maiores atrizes a oportunidade de sair da espiral de sempre, do combo “mulher humilde sofredora maltratada pela vida”. Aqui, ela surge explodindo de tanta beleza, explorando uma imagem pouco positiva mas muito solar, com uma cena em particular que mostra um outro ato seu, em típico momento 007, em que mais uma vez ela se prova.
Os astros do filme, e seu sustentáculo, no entanto, são Marcus Majella e Pedroca Monteiro. E se a verdade que eles imprimem não ultrapassar a barreira da comédia que eles realizam, a cena dramática seguida a uma catarse impecável é a medida exata para medir suas composições. Não apenas pelo que comportam, mas pelo que esse diapasão representa para ambos, de escolas de humor distintas, ainda que sua parceria esteja posta há muitos anos (Vai que Cola). Majella carrega no DNA tanto do humor que Paulo Gustavo impregnou no audiovisual, uma colherada de afeto vendida no meio do escracho homossexual; Pedroca é um ator completo e de análise mais acurada, que acredita em cada palavra que pronuncia e estabelece isso como parâmetro nos jogos de cena. Juntos, suas potencialidades magnetizam o espectador que se deixar levar pelas possibilidades do filme.
Por baixo de tantas doses cavalares de um humor que igualmente amadurece na produção até o limite da cena do posto de gasolina, onde todos os aspectos da produção se unem pelo melhor, Agentes Muito Especiais não esconde suas molas necessárias. Esse é um filme de normatização LGBTQIAPN+, para trazer até o centro do debate as diretrizes do empoderamento queer; afinal, nem precisa de legenda para perceber a utilidade de um filme onde dois policiais gays salvam o mundo, e eventualmente permitem que suas imagens sejam utilizadas como um símbolo de valor social, ou seja, ‘token’. O roteiro de Fil Braz praticamente sublinha essa permissão, sem tornar o jogo óbvio ou panfletário. Isso porque os próprios personagens/atores se colocam como porta-vozes de um tempo verdadeiramente novo. Um tempo não apenas onde a violência é menos tolerada, assim como um tempo de dar orgulho a Paulo Gustavo.
Um grande momento
Garota em chamas


