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Aguirre, a Cólera dos Deuses

Eldorado interno

(Aguirre, der Zorn Gottes, RDA, 1972)
Nota  
  • Gênero: Aventura
  • Direção: Werner Herzog
  • Roteiro: Werner Herzog
  • Elenco: Klaus Kinski, Helena Rojo, Del Negro, Ruy Guerra, Peter Berling, Cecilia Rivera, Daniel Ades
  • Duração: 95 minutos

Em 2022, Werner Herzog completa 80 anos e seu Aguirre, a Cólera dos Deuses‘, 50. Sem dúvida é uma celebração de uma carreira de 60 anos e do primeiro grande filme de um dos grandes diretores da História do cinema. Com a revisão de sua obra e dos reflexos desta em analogia ao nosso tempo, não apenas a coerência se faz presente, como, principalmente, estabelece um novo olhar para essa relação Homem-Natureza, que é a base de seus longas mesmo quando isso não está no cerne das questões. Ao longo da projeção, a loucura muito particular retratada por um jovem diretor ganha diversas camadas, e cria uma atmosfera mutante em sua narrativa.

Aqui, Herzog inicia essa simbiose entre os seres e sua geografia particular, e também cria um disparate político-social em cima de um delírio crescente. O diretor tergiversa sobre a possibilidade de uma sociedade forjada na alucinação, com a chancela de um desespero que possibilita cada uma das ilusões permitidas em tela. Aos poucos, o encontro com o fantástico em forma de cidade acaba por promover a fantasia sem precisar de palpabilidade; se é passível de existência, então tudo pode ser possível. Basta que seus integrantes sejam capazes de aceitar a viabilidade do mágico, para que ele os absorva de tal maneira que nada mais será negado.

Aguirre a Cólera dos Deuses
Werner Herzog Filmproduktion

Em cena, a alegoria não está presente desde o ponto de partida. Inclusive o diretor abraça o sui generis desde o início, ao não apresentar o início da jornada – o filme parte já por dentro de sua viagem, presencial e atmosférica. Mas isso não significa que a fantasia é passageira inicial desse caminho, nem ponto fixo espacial para uma outro entendimento de realismo, um que compreenda uma fisicalidade de exotismo. Dentro de seu universo, Aguirre lida com possibilidades disparatadas de alcance, e a barreira entre o artifício e a naturalidade avança difusa pela narrativa afora, sendo absorvida aos poucos como um elemento de assumida contradição.

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Esse é um ambiente que, se era novo ou inédito em sua filmografia, acabaria por se tornar uma marca registrada: as ligações entre o que é humano e o que ele busca, seja no natural ou no abstrato – ou ainda que compreenda esse binômio de maneira interligada. Essa semente é jogada aqui e germina imediatamente, em lugar a que parecia destinada para o autor; conforme os barcos avançam para uma busca civilizatória inabitual, a civilidade de cada personagem é despida para que possam todos vestir uma nova versão de si mesmos, jogando com novos avatares que possam ser compreendidos no “novo mundo”, aquele que enfim criarão.

Logo a nova funcionalidade de cada um é determinada, e seus intérpretes passam a viver uma realidade paralela não somente no que concerne à descoberta desse lugar mítico, mas principalmente, no que suas novas atribuições os situam, dentro de um contexto onde o surrealismo não se destaca do naturalismo, criando uma fricção que permite a existência de nova consciência, particular de um universo desconhecido. Nesse novo lugar, a sequência do julgamento rapidamente elaborado pela alta casta de Eldorado é, a um só tempo, extremamente contemporânea e também eterna, absorvendo há 50 anos uma discussão sobre um tempo onde os debates decidiriam a validade de uma existência; pois bem, esse tempo é hoje, onde estamos constantemente prestes a nos desintegrar com a força de um tweet.

Aguirre a Cólera dos Deuses
Werner Herzog Filmproduktion

No crescente delírio, o que pode ser computado como parte de uma realidade coletiva passa a ter cores difusas, de acordo com cada espectador – e cada tipo em cena. Em determinado momento, um personagem é atingido por uma flecha na perna e verbaliza “essa flecha não existe, tudo isso é fruto da minha imaginação”, o que provoca no público essa estranheza positiva, de nunca estar exatamente em um lugar confortável, embarcando nessa acidez cada vez menos esclarecedora e pronto a aceitar o que o rumo reserva pra narrativa. Esse status de aceitação acaba por também assolar o próprio grupo filmado, que está ali prestes a viver suas verdades, sejam elas passivas ou ativas, emocional e espiritualmente.

Nascia também em ‘Aguirre’ uma das mais bem sucedidas parcerias do cinema, entre um mestre e ator-fetiche. A dupla que Herzog estabeleceu com Klaus Kinski não apenas trouxe esse casamento tão bem sucedido por tantos anos e projetos. O ator foi uma mola propulsora para os sonhos e desvarios do seu autor. Aqui, o pai de Nastassja se imbui da narrativa e a veste como uma luva, casando perfeitamente ao projeto e vice-versa; é impossível imaginar os longas de Herzog onde Kinski trabalha com qualquer outro ator protagonizando, tal é a intimidade de um com o universo proposto pelo outro. O encontro entre Kinski e um jovem Ruy Guerra tem um caos internalizado prestes a explodir que ambos sabem canalizar para lugares antônimos, criando através de sua interação parte integrante essencial ao longa.

Herzog alcança já no início da carreira uma meta de compreensão cinematográfica que cabe à sua obra, mas que ampliou o olhar em relação ao abstrato da criação de maneira coletiva. A proposta de costurar imageticamente tomos de construção tão diversos, indo do concreto histórico que mapeia indígenas e civilizações apagadas pelo fim das quimeras, até o mais sensível sintoma de abstração coletiva, é um trabalho que ele mesmo aperfeiçoou durante os anos, e seguiu projetando realidades alternativas para cineastas em processo de desconstrução em todo o mundo. A partir dos códigos estabelecidos em Aguirre, mais uma inauguração foi permitida ao Cinema, a arte de inebriar, que chega ao mais profundo da expressão.

Um grande momento
O julgamento

O filme Aguirre, a Cólera dos Deuses foi escolhido por um dos apoiadores do Cenas. Apoie o site e peça o seu!

Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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