Crítica | Festival

Aldeia Natal

A história de nós todos

(Aldeia Natal, BRA, 2022)
Nota  
  • Gênero: Documentário
  • Direção: Guto Pasko
  • Roteiro: Guto Pasko
  • Duração: 95 minutos

É estranho ouvir Guto Pasko pôr em cheque a sua existência em cena de Aldeia Natal, seu novo filme em competição no Cine PE 2022. Isso não por uma espécie de obrigatoriedade emocional com sua a terra que lhe pariu, mas porque essa tem sido a matéria-prima do diretor, de algumas ou de todas as formas, até aqui. Sua origem ucraniana e seus pilares, a cidade de Prudentópolis onde viveu a primeira infância, personagens da cidade que o diretor tenta dissecar, tudo isso já foi filmado por Pasko anteriormente, e agora viemos a saber dessa sua ojeriza especial. Isso o enche de uma particularidade comum a muitos artistas, que ele por si só parece alimentar em um longa cheio de possibilidades vibrantes, mas que acaba por escolher caminhos engessados. 

A narração em off de Pasko, por exemplo. A necessidade de utilizá-la já não se consegue compreender muito bem, e a própria entonação do diretor não soa natural; a impressão de que ele está sendo obrigado a realizar uma tarefa em absoluta má vontade é forte. Isso que já apresenta o personagem Guto para o espectador faz com que também tenhamos um afastamento igualmente natural, já que o personagem parece arredio e até mesmo dissonante do naturalismo perseguido. Um filme onde se filma um acerto de contas pessoal em contexto de documentário deveria nos aproximar de tudo que é filmado, e não afastar o público quase a provocar receio do material. O personagem Guto é bem mais interessante do que o diretor Pasko consegue elaborar. 

Aldeia Natal suscita uma curiosidade quase mórbida em torno de elementos que Pasko ainda não está confortável para abordar. O resultado é sairmos tão enevoados em suas dúvidas e em sua revolta emocional contra o seu passado quando entramos; nada é necessariamente esclarecido. E mesmo que Pasko deixe claro que suas cicatrizes não vão desaparecer, seria minimamente atencioso entender não apenas o contexto geral, mas a sua voz unitária. Uma cena catártica e muito incômoda é filmada pelo diretor, um almoço de Natal entre sua numerosa família, onde um pranto convulsivo vai sendo disseminado entre todos os integrantes – nesse momento, muito vêm à tona, e conseguimos compreender seus personagens. Guto, não. 

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Não tem a ver com imbróglio narrativo, mas com um tipo de sonegação que faz o espectador sentir como se tivesse sido enganado por muito tempo. Ora, se não havia a intenção de revelar-se como protagonista, porque Pasko é tão explícito consigo mesmo? Aldeia Natal, ainda bem, não é exclusivamente seu diretor, embora 90% o seja. O que resta, mostra uma família carismática que deseja encontrar suas raízes, e é dessa família que o diretor faz parte. É um grupo de pessoas extremamente carismático, que guarda consigo anos e anos de emocional enterrado na infância, e ainda assim se transformou em um grupo até animado e ruidoso. Se a cena do pranto incessante parece exploratória, esse sentimento é contrabalançado pela sensação de que saímos desses planos enredados pela humanidade que exala dali, e ainda bem que nem sempre seu filho pródigo consegue transformar negativamente suas imagens.

No caldo geral, Aldeia Natal é um documentário excessivo, cujo diretor é personagem principal, e parte integrante de uma História que dura mais de 120 anos, que por isso mesmo não consegue ter discernimento de corte. O resultado é uma duração que reforça a necessidade de uma edição mais precisa, que retirasse a reiteração de suas informações. Estamos diante de uma narrativa que deveria ser poderosa, mas que vai perdendo força, histórica ou emocional, diante do excesso. A viagem à Ucrânia, que deveria ser hipnótica, igualmente se prova exagerada com seus pormenores, e o filme perde a oportunidade de explorar um país que foi o centro das atenções em 2022. Tem um belo filme escondido debaixo das costuras em profusão, que Bruno Gularte Barreto, em seu igualmente gaúcho 5 Casas, entregou com exatidão.

O mais estranho é que Barreto faz um exercício de conectar o real com o artificial, isso nunca é escondido ou não-declarado, e concebe um filme-instalação que emociona. Pasko não tenta isso, e o que aparece em cena são elementos com os quais ele não consegue trabalhar. Uma das provas é a cena entre ele, sua mãe e uma cabra, cuja artificialidade em parecer natural é evidente a ponto de nos conectarmos a ela. Talvez o envolvimento tenha sido elevado, e o seu diretor não tenha lidado com o distanciamento de sua obra. Enquanto indivíduo, esse afastamento é impossível; enquanto diretor, ele tinha essa obrigação. Ou não, e Aldeia Natal está aí, ganhando o mundo, provavelmente cheio de subjetividades. 

Um grande momento

A irmã de Guto confessa suas experimentações religiosas

Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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