Crítica | CinemaDestaque

Os Fabelmans

O que faz o cinema de cada um

(The Fabelmans, EUA, 2022)
Nota  
  • Gênero: Drama
  • Direção: Steven Spielberg
  • Roteiro: Steven Spielberg, Tony Kushner
  • Elenco: Michelle Williams, Paul Dano, Seth Rogen, Gabriel LaBelle, Mateo Zoryan, Keeley Karsten, Alina Brace, Julia Butters, Birdie Borria, Judd Hirsch, Sophia Kopera, Jeannie Berlin
  • Duração: 151 minutos

“Filmes são sonhos que você nunca esquece”.  Assim o pequeno Samuel Fabelman foi apresentado ao cinema por sua mãe momentos antes de assistir ao seu primeiro filme na tela grande e se apaixonar pelo resto da vida. Ele é o protagonista de Os Fabelmans, novo longa daquele que criou tantos sonhos inesquecíveis para todos, Steven Spielberg. Sem fugir da autobiografia, mas criando todo um novo universo ficcional onde ela se insira, o diretor faz uma bela e emocionante carta de amor à sétima arte e ao ofício de criar histórias usando “fotografias que se movem”.

À história se acompanha desde muito cedo e por um bom tempo. Da infância do protagonista até que ele se torne um jovem adulto, do deslumbramento com as primeiras imagens projetadas até a primeira conversa em um estúdio, passando pela descoberta, experimentações e as primeiras realizações cinematográficas. Tudo isso muito bem encaixado na história de uma família cheia de afeto e conflitos. Com roteiro de Tony Kushner (com quem já trabalhou em Munique, Lincoln e na adaptação de Amor, Sublime Amor) e dele mesmo, voltando a escrever depois de um tempo, Spielberg cria um ambiente acolhedor, de onde não se quer afastar, e amplia o seu alcance para muito além dos cinéfilos que, com certeza, queriam estar ali.

The Fabelmans
Storyteller Distribution Co., LLC.

Além de Sammy, que quer ser chamado de Sam, o núcleo duro é formado pelo pai engenheiro, Burt; a mãe pianista, Mitzi; e as irmãs Natalie, Reggie e Lisa, além de um tio do coração que está sempre presente, o melhor amigo do pai, Bernie. O menino, filho da arte com a tecnologia, conta com o incentivo e apoio de todos, embora tenha que lidar em algum momento com a desvalorização de suas escolhas, como qualquer artista – e o próprio filme tem um personagem ótimo para lidar com isso,  o tio Bóris, com suas histórias e conselhos. 

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A questão está também em outra personagem interessante de Os Fabelmans, Mitzi, que escolheu o caminho diferente e deixou de ser a musicista que poderia ter sido. Não que não haja apoio, mas existe sempre a imposição de prioridades. Vivida por Michelle Williams, em mais um grande trabalho, a mulher se vê realizada como mãe, ama aqueles momentos, mas aparece deslocada naquela vida. Ainda assim,  isso não faz dela menos forte e impositiva. O que, numa dinâmica de não-pertencimentos, leva a Burt, interpretado por um Paul Dano em estado de graça, figura que cumpre o papel tradicional do provedor, mas é muito mais do que isso, e também amarga suas frustrações.

The Fabelmans
Storyteller Distribution Co., LLC.

Os Fabelmans trata de sentimentos bem conhecidos e temas muito comuns em qualquer relacionamento familiar, sem deixar de imprimir ali a especificidade de sua realidade, afinal de contas é uma família branca, de classe média e judia. Em meio aos barulhentos jantares em dia de festa, a evidente crise conjugal, a difícil adaptação na nova escola e a descoberta do primeiro amor, fala também de quesitos técnicos básicos do cinema; mostra como funciona a montagem, inclusive tratando de intenção, e acompanha os sets, com direito a efeitos especiais sendo produzidos e direção de atores.

Há muita habilidade na união desses dois universos que se confundem e afastam por muitas vezes, com uma narrativa fluida que não pesa para nenhum dos lados e compreende a relevância do espaço para cada um deles. Aliás, o equilíbrio visto em Os Fabelmans, justamente um filme tão pessoal, é de se destacar. Spielberg é alguém que tem a mão pesada para o melodrama e com uma tendência à manipulação desmesurada. Este não é mesmo um projeto que comportaria tanta intromissão, mas mesmo nos momentos mais densos, onde isso poderia surgir, não há exageros e nem exacerbações. Em suas longas e imperceptíveis 2h30 de duração, o material emociona por si.

The Fabelmans
Storyteller Distribution Co., LLC.

As diferenças se encerram aí. Sabemos de quem estamos falando e o cuidado se nota em cada frame do filme. Não há tanta simplicidade na vida dos Fabelmans embora ela seja simples, e isso está no modo como seus espaços se apresentam. O desenho de produção de Rick Carter (ganhador do Oscar por Avatar e Lincoln), seja nas casas da família ou nas aventuras do diretor infantojuvenil Sammy, é incrível não só pela capacidade de ambientação, mas por traduzir personalidade e sentimentos. A sala da casa quando pais e filho tentam conversar depois da briga na escola é um ótimo exemplo. Os figurinos de Mark Bridges (oscarizado por O Artista e Trama Fantasma), em especial os de Mitzi, também se destacam nessa área.

E é difícil falar de uma obra do Spielberg sem falar da fotografia. Ao lado de seu parceiro de sempre Janusz Kaminski, ele impressiona até no mais simples. Os planos engrandecem a arte em tela, fazendo cada pequena descoberta ganhar novos contornos, e com que sequências como a do primeiro teste no ferrorama ou as das exibições para o grupo de escoteiros tragam para fora da tela o sentimento que está dentro dela. Acompanhando tudo, a já esperada trilha de John Williams, mas, na medida do projeto, suave e discreta. Há momentos de identificação mais evidente, eles vêm recheados de homenagens às influências do compositor, tendo o piano como destaque, e se encontram bem com as diegéticas sonatinas de Joanne Pearce Martin.

The Fabelmans
Storyteller Distribution Co., LLC.

Os Fabelmans, no final das contas, é um olhar carinhoso para trás que, mais do que isso, vem com a consciência de que as influências são várias, de fora, mas de dentro de casa também. Se muitas são as homenagens ao cinema em que o destaque é o próprio cinema, Spielberg deixa tudo mais pessoal, pois a arte é mesmo o resultado disso. Cada momento passado ali, entre muito amor, vivendo a dualidade cotidiana da arte e da tecnologia, do impulso e da calma, da paixão e da razão; cada uma daquelas pessoas, com suas crenças, manias e modo de encarar a vida, estarão de alguma maneira no cinema de Sammy e de Steven. Assim como tudo aquilo a que ele assistiu ao longo de sua vida e também, claro, aquilo que ele ouviu dos que já sabiam.

Um grande momento
Tio Boris

Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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1 Comentário
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Elton Barroso
Elton Barroso
05/01/2023 01:48

Sublime!

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